08 de julho de 2026
Cultura

Páscoa: uma nova atitude

Padre Beto *
| Tempo de leitura: 4 min

Um milionário aproximou-se de um velho padre e fez a seguinte provocação: “Eu lhe dou toda a minha fortuna se você me disser onde Deus mora!” O padre, então, respondeu com um sorriso: “Eu desisto de meu serviço de padre hoje mesmo, se você me disser onde Ele não mora!”

Da maior festa do Cristianismo, a Páscoa, podemos retirar duas grandes lições para a vida. Em primeiro lugar, celebrar a ressurreição de Cristo significa admitir que o ser humano nasceu para o prazer, para a felicidade, para a plenitude.

A Páscoa é a festa da vitória da vida sobre a morte. Com ela podemos compreender a força que possuímos e que nos movimenta para a transcendência, para uma vida mais intensa, mais fraterna, mais amada, mais plena. Aristóteles escreve em sua “Ética a Nicômaco” que o homem prudente luta para libertar-se do sofrimento, não do prazer.

A segunda lição da Páscoa é, porém, a consciência de que a vida, pelo menos nesta existência, não é um paraíso. Como o prazer, a felicidade e a satisfação pertencem à vida, o desprazer, a infelicidade e a insatisfação também fazem parte dela. Afinal, a vida humana encontra-se ainda imperfeita e por esta razão movimenta-se em busca de perfeição produzindo toda forma de fenômenos que nos tiram ou dificultam a satisfação de viver, ou seja, nos causam sofrimentos.

Assim, existe sofrimento físico (causado por doenças, catástrofes, etc), o sofrimento ético, ou seja, aquele provocado pela própria consciência e ação humana, e o sofrimento social, que podemos também chamar de estrutural, pois advém de uma ordem política, econômica ou social.

Porém, a Páscoa não nos fala simplesmente sobre a existência do sofrimento, mas principalmente nos ensina a atitude que deveríamos ter diante dele. Observando o comportamento de Cristo diante de sua paixão e morte, encontramos um verdadeiro caminho de alquimia do sofrimento, a receita de transformá-lo em verdadeira experiência geradora de vida nova.

Na atitude de Cristo não encontramos fuga e, muito menos, resignação. Em primeiro lugar, o Cristo nos ensina que fugir dos sofrimentos não é a forma adequada de alcançar satisfação. Mas também viver não significa se resignar diante das dificuldades da vida. Ninguém nasceu para carregar cruzes e também não é porque o Cristo carregou uma cruz que nós também devemos fazê-lo.

O Cristianismo não é uma religião de masoquistas e muito menos covardes. O caminho proposto é uma postura ativa diante do sofrimento, postura esta que nos leve a vivenciá-lo profundamente, transformando-o em material para uma vida nova. A cruz só ganha sentido com a ressurreição. O primeiro passo para esta atitude é reconhecer o sofrimento como uma etapa natural e inevitável no processo de conquistar algum bem. Não há escapatória: dificuldades, sofrimentos e males pertencem à vida. Porém, o que torna a vida satisfatória é a maneira de encarar o sofrimento. Todo o sofrimento é, na verdade, um sintoma, um indício de que algo não está bem. Reverter ou não este prognóstico depende do grau de sagacidade e de determinação daquele que sofre.

Montaigne afirmava que a arte de viver está em fazer bom uso de nossas adversidades, ou seja, nós devemos não somente aprender a suportar tudo aquilo que não podemos evitar, mas saber tirar das adversidades algum proveito. Nietzsche compreende o sofrimento com igual profundidade. Utilizando-se da imagem da montanha, o filósofo alemão nos explica que o sofrimento é o momento do alpinismo. A base da montanha é a imaturidade, a infantilidade, a mediocridade. Se temos medo de sofrer, se procuramos fugir simplesmente dos problemas e das adversidades da vida, permanecemos comodamente na lama da mediocridade. Permanecendo na base da montanha podemos não vir a experimentar a dor, mas no final deixamos verdadeiramente de viver. O momento do alpinismo é o momento da perda do medo de arriscar, o momento da experiência. O alpinista sabe dos perigos da escalada, mas sabe também que somente enfrentando-os terá a satisfação de ver horizontes amplos no topo da montanha.

Para Nietzsche, o segredo de se transformar uma existência em um terreno fértil e próprio à colheita e também em grande divertimento é viver “perigosamente”. O cristão deve ser o alpinista da vida. Ele sabe que a vida é perigosa. Ninguém, por mais que tenha fé em Deus, está livre dos sofrimentos da vida. Mas sua relação com Deus o faz perder o medo de viver, faz com que ele atire-se na vida e faça de todas as experiências um enriquecimento de seu ser e do mundo. “Construam suas cidades nas encostas do Vesúvio!” (Nietzsche).

* Especial para o JC