08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Tênis


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Infindos tênis trafegam diariamente pelas calçadas brasileiras, enquanto nas ruas o lugar é dado aos carros. Nas calçadas observam-se as mais diferentes cores, marcas, tamanhos e formatos anatômicos, exclusivamente desenhados para tipos físicos e perfis distintos. Nas ruas, um desfile interminável de sons e cheiro de pneu.

A esses meios de locomoção são associados fins estéticos e, conseqüentemente, tornam-se objetos de estudo do comportamento humano, sendo passivos duma análise e diferenciação; no entanto, tal analogia estatiza-se ao levar em consideração outro ponto. Enquanto que por meio do carro é possível separar nitidamente ricos de pobres, o tênis não permite essa classificação, justamente pela facilidade de se adquiri-lo. Dessa forma, torna-se um ótimo meio para analisar o ser humano dentro de sua individualidade e traçar um padrão comportamental.

O tênis possui duas funções básicas: amortecer o impacto dos pés contra o solo e os fins estéticos. No entanto, a proteção passou a ser uma finalidade secundária e a beleza é muito mais valorizada, tornando-se, a partir disso, um objeto de inclusão social e de afirmação.

A marca do produto está associada ao preço e, inerentemente, à posição social. Por meio de sua observação, podemos caracterizar o perfil do indivíduo, na busca incessante de mostrar-se detentor dum poder aquisitivo ou de preocupações que ultrapassam a futilidade.

Na primeira situação, percebe-se a busca de status e sair duma condição marginalizada, encontrando nesse objeto o instrumento ilusório para romper as invisíveis divisões que separam as classes sociais, pois no instante em que o possui e o ostenta, pode afirmar-se como divergente a uma classe baixa, e mesmo naqueles que se encontram numa classe alta, esse elemento é essencial para se auto-afirmar, levando-se em conta que a necessidade de exibir-se é fundamental válvula de escape para sobrepujar a realidade, muitas vezes insuportável.

Na segunda, percebe-se a preocupação maior com fatores ligados à sobrevivência, e são, na maioria das vezes, indivíduos que constituíram família e que passaram por amadurecimento, desembocando em quesitos menos banais.

Diante disso, observa-se que o tênis serve tranqüilamente para um estudo comportamental que pode contribuir para traçar um perfil comum, principalmente entre adolescentes.

Ricardo Assahi - professor - RG 7.401.445-3