09 de julho de 2026
Articulistas

'Velho Chico'


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Surpresa, espanto, assombro, revolta, indignação!!! Sim, caro leitor, tudo isso e muito mais, quando ouço a campanha publicitária veiculada na televisão pelo governo federal justificando a transposição do rio São Francisco, com o argumento apelativo e eleitoreiro de que a escassez de água e a miséria do sertanejo serão superadas com tal obra. Apesar de muito se falar há vários anos, o atual presidente não tinha como prioridade esta obra. Lembro-me muito bem de um debate, ainda na campanha presidencial, no qual o candidato Lula, quando questionado sobre este projeto, sabiamente, respondeu que a urgência estava na revitalização do rio pois, aos poucos, o Velho Chico agoniza: nascentes estão secando num ritmo assustador, o assoreamento é visível em praticamente todo seu leito e há a poluição por resíduos urbanos e rurais.

Para aqueles que desconhecem a obra de transposição, trata-se de uma idéia pensada ainda nos idos do século 19, época do Império, e que propõe desviar parte das águas do rio, na altura do município de Cabrobó (PE, divisa com a BA), e bombear esta água, transpondo o relevo em cerca de 160 metros por centenas de quilômetros, despejando-a em canais, açudes e rios temporários do sertão do Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba. Toda e qualquer obra que venha a minimizar o impacto da seca e da miséria no sertão, obviamente que é louvável e merece o apoio de todo cidadão. Ninguém nega o impacto social trazido pela seca. Porém, sabemos que toda a situação de penúria não é decorrente apenas de determinantes naturais, mas, sobretudo, de condicionantes históricos, políticos e econômicos.

Li muitas opiniões de diferentes segmentos sociais e políticos, e me parece que apenas o governo e seus aliados dos Estados beneficiados são os únicos a defender com empenho esta empreitada, especialmente o ministro Ciro Gomes, da Integração Regional, que tem seu reduto eleitoral no Estado do Ceará. Apesar das vozes contrárias (e não são poucas!), parece-nos que a decisão política, mesmo que isolada, já está sacramentada e a obra vai se realizar, tendo início agora em abril.

Segundo especialistas, o problema da escassez hídrica não se refere exclusivamente à falta de chuva, mas sim a sua irregular distribuição. Construção de açudes, cisternas para captação de chuva, perfuração de poços, são sistemas eficientes e baratos, de maior abrangência, pois servirá para sustentação de muito mais famílias. Será que a transposição levará água até as comunidades mais distantes dos canais construídos? Ou será que não estarão beneficiando, mais uma vez, os latifundiários e os novos especuladores? Diversos estudos na região do médio e baixo São Francisco mostram que a transposição pode trazer complicações ao abastecimento energético, à fruticultura irrigada, à navegação, aos pequenos agricultores das margens, além do impacto ambiental ainda não totalmente dimensionado. Pior de tudo, é que a água retirada não será totalmente utilizada, pois muito se perderá por evaporação e infiltração. Um modelo de desenvolvimento que mais uma vez se perpetua como excludente, apesar de tentarem argumentar o contrário. A sociedade deve estar informada, consciente e mobilizada. Mas também não custa nada rezar para São Francisco de Assis, protetor dos animais, que interceda pela vida do nosso Velho Chico.

O autor, Orlando Merlin Filho, é professor de geografia do ensino médio e pré-vestibular