09 de julho de 2026
Geral

Falta professor para ensino de filosofia

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 3 min

Depois de uma ampla consulta à rede pública de ensino realizada em 2004, o governo estadual incluiu este ano a filosofia como disciplina obrigatória no currículo escolar. Entretanto, a carência de profissionais com formação específica na área ainda dificulta a total adaptação das instituições à medida. Em Bauru, há casos de escolas que, para cumprir a determinação, contam apenas com estudantes do curso.

Uma delas é a Eduardo Velho Filho, que dispõe de dois alunos para ministrar as aulas, para revolta da diretora Nirde Rosalin Barbieri. Manifestando-se contrária ao fato, ela afirma que a iniciativa é prejudicial ao processo de ensino. “Acho um absurdo, pois os alunos ainda em formação não têm a experiência necessária para assumir o comando de uma classe, que chega, às vezes, até a 40 integrantes”, sustenta.

Barbieri defende que professores de outras áreas correlatas assumam a função enquanto os habilitados sejam selecionados. “Para isso seria melhor os docentes de áreas afins, como história e sociologia. Eu, que sou professora de história, dei aula de filosofia e sociologia durante três anos e me saí bem”, justifica.

“Foi uma solução emergencial para suprir a falta de professores habilitados. À medida que os formados em filosofia surgirem, substituirão os alunos”, explica Paulo Maximino, dirigente regional de Ensino em exercício na Diretoria Regional de Ensino de Bauru. No entanto, ele não soube informar no momento da entrevista qual a demanda da cidade por docentes habilitados de filosofia nem em quantas e quais escolas a disciplina está sendo ministrada por alunos.

Ele acrescenta que o órgão lançou, recentemente, um edital de abertura de inscrições para docentes da área para cadastrar profissionais habilitados interessados em ministrar as aulas nas unidades escolares da rede oficial de ensino. “Mas a procura foi baixa”, ressalta Maximino.

Apesar disso, os profissionais do ramo comemoram o retorno da filosofia como disciplina do ensino médio. “É uma conquista para todos os jovens que terão a possibilidade de reflexão crítica e de exercício da argumentação. É uma necessidade na formação, pois permite adentrar ao espírito filosófico de reflexão, diálogo, racionalidade, autonomia e não dogmatismo”, enfatiza o professor Marcelo Carbone Carneiro, da unidade bauruense da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Para Carneiro, a filosofia nunca deveria ter sido retirada da estrutura curricular. “Ela retorna para o lugar de onde nunca deveria ter saído, desde o golpe de 1964 e durante todo o governo militar. Felizmente, vivemos em outro momento da história e uma das disciplinas que promove a reflexão crítica está de volta”, afirma.

O pensar

Segundo o professor, a aula de filosofia será muito mais interessante se despertar no aluno a busca de um certo modo de pensar que é filosófico. “A idéia é fazer com que os alunos elaborem um discurso sobre problemas do cotidiano e possam transformá-los, sem que necessariamente tenham consciência, em questões tradicionalmente filosóficas. Filosofar consiste em articular o pensamento e possibilitar um olhar sobre as coisas que permite construir uma forma de posicionar-se articuladamente sobre as grandes questões humanas”, conceitua Carneiro.

Assim, Carneiro entende que o ensino de filosofia não deve apoiar-se somente no desenvolvimento de conteúdos. “Não é aconselhável, também, que se limite a transmissão da história da filosofia e, muito menos, que esteja ligada a uma explicação verdadeira e definitiva sobre as coisas, como um dogmatismo religioso, político ou de qualquer outra forma”, frisa.