Em um bairro com acentuada desigualdade social e carência de serviços públicos, como creches e áreas de lazer, a saída para enfrentar a pobreza muitas vezes é partilhar até a moradia. É o que aponta pesquisa feita pela Faculdade de Serviço Social da Instituição Toledo de Ensino (ITE), a pedido da associação de moradores, sobre o perfil comunitário do Jardim Prudência, Jardim Filomena, Vila São Sebastião e Jardim da Grama. Das 326 famílias pesquisadas, 16% não moram sozinhas - o espaço físico é dividido por duas ou mais famílias.
A maioria dos pesquisados - 75% - mora em casa própria, mas a renda familiar é baixa. Das 326 famílias, 13% vivem com menos de um salário mínimo (R$ 260,00) por mês, o que configura o estado de pobreza. Vinte e seis por cento dos entrevistados disseram que dispõem de dois e três salários mínimos por mês e apenas 19% contam com mais de cinco salários mínimos.
Numa realidade desta, a partilha é uma estratégia indispensável à sobrevivência material e afetiva, concluem as professoras Maria Inês Pereira Fontana de Souza e Gerceley Pacolla Minetto, que coordenaram a pesquisa feita no Jardim Prudência e adjacências em 2004, cujo resultado foi divulgado nesta semana. “A solidariedade parental é condição primária para sobrevivência de muitas famílias na realidade atualâ€, atesta o relatório do estudo.
É por isso que no quintal da família Batista, que há 18 anos mora no Jardim Prudência, o varal sempre está com roupas a secar. “Aqui são três famílias: meu irmão com a mulher e o filho de 5 anos nesta casa da frente, eu e meu marido nesta aqui do fundo e minha mãe com três netas, que são como se fossem minhas filhas, morando aqui ao meu ladinhoâ€, explica a dona de casa Marlene Aparecida Batista Monteiro.
Ela não esconde que as três famílias têm melhor qualidade de vida por partilharem o mesmo imóvel. “Meu marido é montador de móveis e ganha cerca de R$ 700,00 por mês. Se fôssemos pagar aluguel, não daria para ter comprado o carro que hoje todos nós usamosâ€, admite ela. Porém, a união da família, que visava economia, agora tornou-se costume. “Ninguém pensa em se mudar. Um ajuda o outroâ€, diz.
Apesar das três famílias viverem em espaços separados por paredes dentro do mesmo imóvel, dividem a conta de luz, água e, muitas vezes, um faz a refeição na casa do outro. “Se minha cunhada, que trabalha fora, chega tarde, vem jantar comigo ou com minha mãeâ€, relata Marlene que, quando se casou, há 14 anos, sem dinheiro para comprar um terreno ou para alugar uma casa, construiu três cômodos ao lado da casa de sua mãe.
Anos depois, a mãe dela, a faxineira Malvina Aparecida Batista trocou a casa de madeira na frente do imóvel por uma de alvenaria, geminada à de Marlene. A matriarca divide a residência, de cinco cômodos, com três netas que ela ajudou a criar. Mayara Pereira Batista, 18 anos, a mais velha das três, está estudando, procurando emprego, mas não pensa em mudar-se. “Vou continuar aqui por muito tempoâ€, diz.
Quando outro filho decidiu-se casar, não teve dúvidas: construiu mais três cômodos na frente do imóvel. “E agora, como ele e a mulher trabalham fora, o filho fica com a gente quando não está na escolinhaâ€, comenta Marlene. Longe do alcance dos olhos da matriarca está apenas um filho. “Ele mora de aluguel e até iria vir para cá também, mas agora vai mudar-se para Barretosâ€, revela a irmã.
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Saneamento básico
Apesar da baixa renda dos moradores e da falta de equipamentos sociais, a infra-estrutura de saneamento básico do Jardim Prudência e adjacências é boa. Das 360 famílias pesquisadas pela Faculdade de Serviço Social, 98% têm água encanada; 99% têm energia elétrica; 93% têm esgoto coletado e 99% têm o lixo recolhido regularmente.
Porém, as coordenadoras da pesquisa entendem que ainda é preciso intervenção pública para que todos os moradores sejam atendidos pelos serviços de saneamento básico. “São indicadores prepoderantes para a saúde da populaçãoâ€, aponta o relatório do estudo.