08 de julho de 2026
Cultura

Sobre mundos

Por Padre Beto | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Em algum lugar na China, vivia uma professora que dava aulas em duas pequenas cidades. Estas, porém, ficavam divididas por uma imensa montanha. Portanto, para ensinar as crianças da cidade vizinha, a professora tinha que percorrer alguns quilômetros circulando a montanha. Certa vez, a chinesa ouviu dizer que a oração remove montanhas. Entusiasmada com a novidade, ela fechou-se em seu quarto e começou a rezar intensamente para que a montanha saísse do lugar. A professora rezou manhã e tarde inteiras.

No final do dia, ela abriu a janela e .... a montanha permanecia no mesmo lugar. A mulher, então, caiu em desespero e começou a chorar. Neste momento, passava por perto um chinês que tinha a fama de ser louco. Ouvindo o choro, perguntou à professora o que estava acontecendo. Ao ouvir toda a história, o chinês louco respondeu com muita confiança: “Eu vou resolver o seu problema!”

Depois de buscar uma pá, o chinês dirigiu-se à montanha e começou a cavar um buraco. A professora curiosa perguntou a ele o que pretendia fazer. O chinês respondeu, com um sorriso no rosto: “Eu vou cavar um túnel que vai atravessar a montanha. Assim, você poderá percorrê-la em linha reta sem precisar circulá-la, chegando mais rápido na outra vila!” “Você é louco!”, respondeu a mulher, “a montanha é muito grande para você cavar um buraco!”

Mas o chinês louco continuou a cavar sem dar atenção à professora. A sua atitude chamou a atenção dos outros moradores daquela pequena cidade, que foram se juntando para ajudá-lo a cavar. A notícia correu na região e foi parar na cidade vizinha. Assim, os moradores da outra cidade começaram a cavar do outro lado da montanha. Em poucos dias, o túnel estava construído e não só a professora, mas todos os moradores podiam circular em poucos minutos de uma cidade para a outra.

Sem dúvida alguma, a nossa vida não é perfeita. Nós nos deparamos diariamente com a falta de alguma coisa ou com uma situação que nos angustia ou pelo menos nos causa desconforto. É inevitável o pensamento de que nossa vida é boa, mas ela poderia ser bem melhor. A imperfeição e também a sua possível superação expressam-se continuamente em nossa natureza humana. Em outras palavras, o ser humano nasceu com a vocação de superar suas faltas e imperfeições.

Acomodar-se com o estado atual da vida é um modo sutil de cometer suicídio, pois todos nós somos orientados para o futuro, o qual ainda está por ser construído. Isso podemos sentir em nossa própria estrutura biológica que, por exemplo, busca a água quando sentimos sede, como também em nossa consciência que se angustia com o presente e por isso sonha com o futuro.

Justamente, entre a insatisfação e o sonho encontra-se, para o filósofo alemão Ernst Bloch, a qualidade mais importante de nossa consciência: a esperança. Esta não se constitui em uma pacata ou angustiante “espera” de algo que gostaríamos de ser ou ter, mas sim por uma antecipação do futuro desejado. Cícero definia a esperança como a força que nos liberta de uma situação infeliz e nos abre uma perspectiva positiva para o futuro. Na linguagem de Bloch, ela acontece em um processo dialético onde se relacionam três dimensões básicas da vida: o fronte, ou seja, o tempo que vivemos, no qual o futuro será decidido; o novum que consiste no sempre renovável e possível conteúdo do futuro e, por fim, a matéria (que vem do latim mater = mãe), que de forma alguma é estática, mas sim dinâmica e frutífera.

Viver a esperança significa caminhar para o próximo tempo (fronte), construir a realidade que sonhamos (novum), transformando nossa vida (matéria). Para o filósofo alemão, nunca se deve afirmar que “A” é igual “A” e muito menos que “A” é diferente do “não A”. A única afirmação correta, em nossa vida, é que “A” não é ainda o “não A”, pois a matéria é sempre uma mãe grávida do futuro. Quem não vive nesta dinâmica da esperança está com certeza morto ou deliciando-se com o éter da alienação.

Santo Agostinho compara a esperança com um ovo, o qual é o símbolo de vida nova. Porém, este ovo acaba ficando podre se não for chocado. A vida perde seu sentido se deixarmos de viver a esperança “esperando” que nossos sonhos caiam do céu. A esperança deve ser a força que nos movimenta, ou seja, que nos coloca em ação (facultas progrediendi). Ela não é um ópio do povo, mas sim uma estimulação da transformação do mundo, a força revolucionária que, como dizia Karl Barth, existe ao darmos o próximo passo.