Em algum lugar na China, vivia uma professora que dava aulas em duas pequenas cidades. Estas, porém, ficavam divididas por uma imensa montanha. Portanto, para ensinar as crianças da cidade vizinha, a professora tinha que percorrer alguns quilômetros circulando a montanha. Certa vez, a chinesa ouviu dizer que a oração remove montanhas. Entusiasmada com a novidade, ela fechou-se em seu quarto e começou a rezar intensamente para que a montanha saísse do lugar. A professora rezou manhã e tarde inteiras.
No final do dia, ela abriu a janela e .... a montanha permanecia no mesmo lugar. A mulher, então, caiu em desespero e começou a chorar. Neste momento, passava por perto um chinês que tinha a fama de ser louco. Ouvindo o choro, perguntou à professora o que estava acontecendo. Ao ouvir toda a história, o chinês louco respondeu com muita confiança: “Eu vou resolver o seu problema!â€
Depois de buscar uma pá, o chinês dirigiu-se à montanha e começou a cavar um buraco. A professora curiosa perguntou a ele o que pretendia fazer. O chinês respondeu, com um sorriso no rosto: “Eu vou cavar um túnel que vai atravessar a montanha. Assim, você poderá percorrê-la em linha reta sem precisar circulá-la, chegando mais rápido na outra vila!†“Você é louco!â€, respondeu a mulher, “a montanha é muito grande para você cavar um buraco!â€
Mas o chinês louco continuou a cavar sem dar atenção à professora. A sua atitude chamou a atenção dos outros moradores daquela pequena cidade, que foram se juntando para ajudá-lo a cavar. A notícia correu na região e foi parar na cidade vizinha. Assim, os moradores da outra cidade começaram a cavar do outro lado da montanha. Em poucos dias, o túnel estava construído e não só a professora, mas todos os moradores podiam circular em poucos minutos de uma cidade para a outra.
Sem dúvida alguma, a nossa vida não é perfeita. Nós nos deparamos diariamente com a falta de alguma coisa ou com uma situação que nos angustia ou pelo menos nos causa desconforto. É inevitável o pensamento de que nossa vida é boa, mas ela poderia ser bem melhor. A imperfeição e também a sua possível superação expressam-se continuamente em nossa natureza humana. Em outras palavras, o ser humano nasceu com a vocação de superar suas faltas e imperfeições.
Acomodar-se com o estado atual da vida é um modo sutil de cometer suicídio, pois todos nós somos orientados para o futuro, o qual ainda está por ser construído. Isso podemos sentir em nossa própria estrutura biológica que, por exemplo, busca a água quando sentimos sede, como também em nossa consciência que se angustia com o presente e por isso sonha com o futuro.
Justamente, entre a insatisfação e o sonho encontra-se, para o filósofo alemão Ernst Bloch, a qualidade mais importante de nossa consciência: a esperança. Esta não se constitui em uma pacata ou angustiante “espera†de algo que gostaríamos de ser ou ter, mas sim por uma antecipação do futuro desejado. Cícero definia a esperança como a força que nos liberta de uma situação infeliz e nos abre uma perspectiva positiva para o futuro. Na linguagem de Bloch, ela acontece em um processo dialético onde se relacionam três dimensões básicas da vida: o fronte, ou seja, o tempo que vivemos, no qual o futuro será decidido; o novum que consiste no sempre renovável e possível conteúdo do futuro e, por fim, a matéria (que vem do latim mater = mãe), que de forma alguma é estática, mas sim dinâmica e frutífera.
Viver a esperança significa caminhar para o próximo tempo (fronte), construir a realidade que sonhamos (novum), transformando nossa vida (matéria). Para o filósofo alemão, nunca se deve afirmar que “A†é igual “A†e muito menos que “A†é diferente do “não Aâ€. A única afirmação correta, em nossa vida, é que “A†não é ainda o “não Aâ€, pois a matéria é sempre uma mãe grávida do futuro. Quem não vive nesta dinâmica da esperança está com certeza morto ou deliciando-se com o éter da alienação.
Santo Agostinho compara a esperança com um ovo, o qual é o símbolo de vida nova. Porém, este ovo acaba ficando podre se não for chocado. A vida perde seu sentido se deixarmos de viver a esperança “esperando†que nossos sonhos caiam do céu. A esperança deve ser a força que nos movimenta, ou seja, que nos coloca em ação (facultas progrediendi). Ela não é um ópio do povo, mas sim uma estimulação da transformação do mundo, a força revolucionária que, como dizia Karl Barth, existe ao darmos o próximo passo.