08 de julho de 2026
Saúde

Genoma do 'barbeiro' será desvendado

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

O inseto transmissor do mal de Chagas está entre os próximos na fila para o seqüenciamento de DNA (projeto genoma). A pesquisa é um consórcio entre vários países. Mais da metade dos pesquisadores é brasileira e um dos coordenadores dos trabalhos no Brasil é o médico bauruense Marcelo Morales, chefe do Laboratório de Biologia Celular e Molecular do Instituto de Biofísica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Em entrevista ao JC Saúde, Morales, que também é presidente da Sociedade Brasileira de Biofísica, explica que o seqüenciamento do DNA vai ajudar os cientistas a entender a biologia do inseto. Isso pode ser o primeiro grande passo para o desenvolvimento de tratamentos contra a doença de Chagas.

“É como se estivéssemos construindo uma biblioteca sobre o barbeiro. Vamos fazer o prédio, montar as estantes e arrumar os livros lá dentro. Quando todos os livros estiverem no lugar (o genoma seqüenciado), pesquisadores de diversas áreas poderão escolher um desses livros (gene) e desenvolver outros trabalhos específicos”, compara.

Uma das maiores expectativas é identificar os genes do barbeiro que atuam na sobrevivência e reprodução do protozoário Trypanosoma cruzi, causador do mal de Chagas. O ciclo de transmissão da doença (veja abaixo) ocorre quando o inseto ingere o protozoário. O parasita se aloja e se reproduz no intestino do barbeiro. Ao picar o ser humano, o inseto deixa fezes sobre a pele da vítima. Quando a pessoa coça o local da picada, os parasitas que estão nas fezes penetram na pele através da lesão. Caem na corrente sangüínea e desencadeiam a doença.

Segundo especialistas, inseticidas e repelentes são pouco eficazes para afastar o barbeiro. Além disso, os pesquisadores querem preservar a espécie. Em vez de matar o inseto, eles almejam um tratamento que o torne inofensivo à saúde humana.

A idéia seria, por exemplo, identificar e modificar o gene que garante a sobrevivência do parasita no intestino do barbeiro. Se o protozoário deixasse de se reproduzir e ser eliminado nas fezes do inseto, este deixaria de ser uma ameaça, haveria uma interrupção na cadeia de transmissão da doença.

Escolha

S e g u n d o Morales, este será o primeiro estudo de genoma de um inseto hematófago (que se alimenta de sangue). Até agora, pouquíssimos insetos tiveram seu DNA decifrado. O único já concluído foi o da mosca-dasfrutas. dasfrutas. Também está em curso o seqüenciamento do genoma da abelha.

“A ciência quer comparar as espécies, saber o que cada uma é capaz de fazer. O genoma do barbeiro deve nos ensinar muito sobre a evolução dos insetos hematófagos. O animal que suga sangue tem uma biologia completamente particular e é interessante para nós poder comparar o genoma de um animal com essas particularidades com outros já seqüenciados”, argumenta.

O pesquisador afirma que existem 112 espécies de barbeiro catalogadas no mundo. Para o seqüenciamento de DNA foi escolhido o da espécie Rhodnius prolixus. “Ele foi escolhido por ser uma das espécies mais estudadas até hoje. Isso nos permite pular algumas etapas do processo”, explica.

O Rhodnius prolixus não é a espécie mais prevalecente no Brasil, onde estimam-se entre 5 mil e 10 mil casos novos da doença de Chagas por ano. “Mas todas as espécies desse inseto são muito parecidas, eles têm uma biologia muito próxima, então, basta termos o genoma de uma espécie seqüenciado”, garante.

Morales salienta que o primeiro passo já foi dado: a aprovação do projeto e a liberação de US$ 8 milhões pelos Estados Unidos. Mais recursos deverão ser aplicados por agências brasileiras. O médico estima que o estudo completo deve ser concluído em aproximadamente cinco a seis anos.