Duas coisas caracterizaram o reinado papal mais longo que houve recentemente. Até antes de João Paulo II, todas as rebeliões que houve no bloco ex-soviético foram coordenadas por comunistas dissidentes.
A igreja anunciou auxílio ao partido “Solidariedade” na Polônia e ajuda para que a nova oposição anti-Moscou fosse capitaneada por intelectuais pró-mercado. Uma combinação de tradicionalismo com modernidade. Nenhum outro papa viajou tanto e se valeu diretamente dos meios mais avançados de comunicação e transporte. Mas, tudo isso para afiançar o conservadorismo religioso. Colocou-se contra a “Teologia da Libertação” e também manteve o veto à homossexualidade, às sacerdotisas femininas, ao matrimônio de curas, ao aborto e aos anticoncepcionais.
Sob seu controle a Igreja Romana arrebatou para sua crença milhões de sauditas e contribuiu para o “colapso ateu” em que se encontrava o leste europeu. Na América Latina, coordenou o peso do clero e conseguiu congregar massas em Cuba, porém, não pôde evitar o crescimento de novos cultos cristãos.
A Igreja Católica está mudando de pontífice. A igreja escolheu o primeiro papa polaco com o intuito de mobilizar aos crentes do leste europeu para desmoronar ao “ateísmo vermelho”.
João Paulo II foi o pivô ao conseguir que sindicalistas polacos se apartassem de qualquer oposição à esquerda frente aos regimes pró-Moscou e apontassem ao que Walessa chamava de reintrodução no mercado. Existem possibilidades de que a igreja agora nomeie o seu primeiro Santo Pai de pele escura ou do Terceiro Mundo (de onde vêm 2 de cada 3 católicos), pois seria algo que poderia ajudar a expandi-la.
É difícil que os cardeais elejam um papa modernizador. A maior parte deles foi nomeada por João Paulo II, que sempre foi conservador, anti-aborto, homofóbico, anti-controle de natalidade e pró-celibato.
É improvável que o novo papa adote alguma reforma liberalizante, como aquelas feitas pelos anglicanos (a vertente cristã mais similar à católica), quando ordenam sacerdotes mulheres e gays.
O autor, Isaac Bigio, é analista internacional. Foi professor de política brasileira e latino-americana na London School of Economics