09 de julho de 2026
Articulistas

'A Paixão de Cristo'


| Tempo de leitura: 3 min

Dois motivos me induziram a ver, pela segunda vez, o filme “A Paixão de Cristo”, do diretor norte-americano Mel Gibson. O primeiro foi fazer uma reflexão sobre a Semana Santa, celebrada recentemente; o segundo, por um artigo da “Tribuna do Leitor”, do dia 13/2, com o título: “Pastora? Bispa?”.

Aliás, as nossas gramáticas não registram a palavra bispa como feminino de bispo, mas sim “episcopisa”. Há de se convir que a língua é dinâmica, mas a sua história tem que ser respeitada, pois a palavra bispo tem origem na palavra latina “episcopus”, daí o feminino episcopisa.

Assistindo ao filme “A Paixão de Cristo” com mais acuidade, um novo aspecto saltou aos meus olhos: o papel das mulheres na Paixão de Cristo.

Exatamente quando os homens traem, negam ou fogem - João é uma nobre exceção - ali estão as mulheres: próximas, constantes, fiéis. Claro, Maria se destaca “entre todas as mulheres”, como diria Isabel de Zacarias. Em todo o filme, a Virgem de Nazaré é uma presença constante. Excetuada a solidão absoluta do Getsêmani, a Mãe de Jesus está sempre ao seu lado, acompanha o Filho, anima a Igreja paralisada pelo terror, reanima o Cristo caído sob a pesada Cruz.

Esta foi a “novidade” ao rever “A Paixão de Cristo” de Gibson. Maria, que dera seu sangue ao Filho, agora o recolhe do solo, após a terrível flagelação, enxugando-o com as toalhas delicadamente doadas pela mulher de Pôncio Pilatos! E irá até o fim, aos pés da Cruz, já debaixo dos olhares admirados e compenetrados dos soldados romanos. E ali mesmo, no Calvário, abraçada ao lenho sagrado, Maria acolhe a Igreja, na pessoa de João: autêntica instituição da maternidade marial em relação à Igreja.

Dizer, pois, que a Bíblia é machista e as mulheres são malvistas na Sagrada Escritura é, no mínimo, resultado de uma leitura míope.

As cenas do filme que mostram Maria, Madalena e as outras mulheres (inclusive as que ali manifestaram ódio e sede de sangue) fornecem ao espectador um quadro muito rico de sugestões teológicas, ao apontar o indispensável papel da mulher na História da Salvação.

Na Escritura, a leitura atenta das genealogias de Jesus Cristo mostra a notável procissão de mulheres ao longo dos séculos, que iria desabrochar em Maria de Nazaré. Nesse desfile feminino, figura a primeira mulher, Eva, mãe de todos, seguida de Raab, a prostituta, Ruth, a estrangeira, Tamar, a abandonada, Bestsabé, a adúltera. Tudo a apontar que Deus decidira salvar a carne com a participação da própria carne. Não apenas os “santos”, mas todos os humanos, homem e mulher.

Por isso mesmo, Jesus, no Calvário, como em Caná de Galiléia, dirige-se à sua santa Mãe com o mesmo vocativo que usou para com a adúltera que os fariseus desejavam apedrejar: “Mulher”...

Só com a suave contemplação dos gestos de Maria na Paixão de seu Filho, mostrada no filme, chegamos a perceber esta mensagem: Qualquer perspectiva que pretenda propor-se como luta dos sexos não passa de ilusão e perigo: desembocaria em situações de segregação e competição entre homens e mulheres e promoveria um idealismo subjetivo que se nutre de uma falsa concepção da liberdade.

As mulheres não podem ser padres, pastoras, “bispas”. Mas concebem, gestam e amamentam os futuros padres, pastores e “bispos”. Maria não é a nossa salvadora. Mas deu à luz ao Salvador...

O autor, Gino Crês, é professor