08 de julho de 2026
Geral

Cantina terá de vender comida saudável

Michelle Roxo
| Tempo de leitura: 4 min

Cachorro-quente, hambúrguer, pizza, salgado, chocolate, bala e refrigerante. A lista de alimentos comercializados em cantinas escolares de Bauru é um convite para se adquirir hábitos alimentares incorretos. Mas a expectativa é de que essa realidade mude a partir do próximo semestre deste ano.

Uma portaria aprovada no final do mês passado pela Secretaria de Estado da Educação estabelece normas para funcionamento de cantinas escolares, entre as quais está uma lista de alimentos recomendados para o consumo, que visam melhoria da qualidade de vida dos estudantes. Frutas, legumes, verduras, sanduíches naturais, sucos e vitaminas estão entre os itens permitidos e recomendados.

De acordo com a portaria, as cantinas terão prazo de 180 dias para adequação. Ou seja, a norma deverá entrar em vigor no segundo semestre deste ano letivo.

A responsabilidade pela fiscalização das cantinas será das próprias Associações de Pais e Mestres (APM), que administram diretamente os estabelecimentos ou terceirizam o serviço por meio de licitação. Em caso de descumprimento da regulamentação, estão previstas sanções que vão desde multa até o fechamento das cantinas.

Consultados pelo JC, proprietários desses estabelecimentos já adiantaram que alimentos saudáveis não têm boa aceitação por parte dos alunos. A Direção Regional de Ensino deve reunir os diretores das escolas estaduais para estudar estratégias de educação alimentar, com orientação nas salas de aula.

A tarefa não será fácil. Basta uma rápida consulta a estudantes do ensino fundamental e médio para perceber quais são os alimentos campeões em preferência: salgados, hambúrgueres, pizzas e refrigerantes.

“Eu só como hambúrguer”, confessa a estudante do ensino fundamental Sofia Godoi Santos, 10 anos. “Eu como sempre salgadinho (industrializado) porque é gostoso”, resume o estudante Vitor Hugo Milani, 12 anos.

Balas e chocolates também fazem sucesso entre os alunos. Já as frutas foram motivo de prejuízo econômico para a proprietária da cantina da escola estadual Mercedes Paes Bueno, que tentou inserir recentemente o comércio deste alimento entre os alunos da escola. “Eu coloquei aqui banana, maçã, laranja e perdi tudo. Não vende. Se você oferece, os estudantes dão risada. O hábito (alimentar) já vem de casa”, afirma a comerciante Rita de Cássia Claus.

Alguns estudantes reclamam que as cantinas não oferecem opções de alimentos saudáveis. Mas terminam admitindo que, enquanto houver opção, a preferência será pelos itens gordurosos. “Eu acho a resolução viável. Só que a cultura deles (de alimentação) não acompanha. Eu já tentei colocar frutas, vitaminas, suco natural, mas a venda é baixa”, diz Francisco Carlos Prado, responsável por uma cantina escolar.

Conscientização

De acordo com a assessoria de imprensa da Secretaria de Estado da Educação, além da inserção de alimentos saudáveis nas cantinas, os educadores devem realizar nas salas de aula uma abordagem interdisciplinar das questões nutricionais. Também estão previstas palestras de conscientização dentro das atividades do projeto Escola da Família.

A Delegacia Regional de Ensino (DRE) ainda não estudou estratégias para garantir a aplicação das normas da portaria que pretende estimular nos estudantes novos hábitos alimentares, com base na comercialização de produtos mais saudáveis. A informação é do assistente técnico de planejamento Paulo Maximino, que ontem respondia pela DRE.

Ele afirma que uma reunião deve ser agendada com diretores das escolas estaduais de Bauru para que o assunto seja discutido. “A portaria está publicada. Supõe-se que todas as unidades (de ensino) tenham tomado conhecimento. Mas agora nós precisamos reunir essas escolas para planejarmos e cobrarmos a aplicação dessas medidas”, diz.

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Pesquisa

As normas que determinam a inserção de alimentos mais saudáveis nas cantinas das escolas estaduais nasceram a partir de uma pesquisa realizada pela Secretaria de Estado da Educação nos meses de janeiro e fevereiro desta ano.

Foram ouvidos pais de alunos e representantes de 2.825 escolas de todo o Estado e a partir das sugestões e recomendações colhidas durante a pesquisa foi publicada a portaria instituindo normas para o funcionamento das cantinas escolares.

Segundo a pesquisa, 72% dos consultados consideraram a qualidade dos produtos comercializados nas cantinas satisfatórios. O restante considerou que os produtos poderiam melhorar, especialmente com relação à oferta da frituras e refrigerantes que, na opinião dos entrevistados, deveriam ser substituídos por assados e bebidas não-industrializadas.

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Mudança radical

Para a nutricionista Suzana Janson Franciscato , não basta oferecer alimentos saudáveis nas cantinas escolares. É preciso também proibir a venda de alimentos com excesso de gorduras - que podem levar à obesidade e doenças crônicas, como diabetes e doenças coronárias. Junto ao projeto de uma cantina mais saudável, a nutricionista defende o desenvolvimento de atividades voltadas para a educação alimentar nas escolas.

“Não adianta oferecer iogurte e sanduíche natural, sendo que do outro lado da cantina você vai encontrar refrigerante e salgadinho frito”, diz. “Enquanto você oferece os dois tipos de alimento, sem educação nutricional, a criança não vai aceitar o alimento mais saudável. Ela vai buscar o que é mais apetitoso, que tenha maior quantidade de açúcares e gorduras”, completa.

Ela destaca a importância da educação nutricional dentro das escolas e defende um processo de conscientização sobre o valor, a função e a importância dos alimentos. Sem informação e educação alimentar, os estudantes não desenvolvem o hábito de ingerir alimentos saudáveis, diz a nutricionista.