08 de julho de 2026
Pesca & Lazer

História de pescador


| Tempo de leitura: 3 min

"Araguaia.

Naquele tempo, quase a última fronteira onde só os mais afortunados podiam chegar, sonho dourado de todo pescador.

Para mim então, que começava a ajeitar meu espaço no mundo, foram anos de planejamento e investimento para alcançar esse sonho.

Comprar minha Veraneio, o motor de popa, o barco dividido com um compadre, a construção da carreta para o barco, a luta pelo licenciamento e quantas coisas mais. Todo pescador sabe o que significa isso, quanto empenho e prazer a gente tem a cada passo.

Setembro de 1978. Acertada a turma, cada um com seus encargos, encontro na casa da tia que tinha um estacionamento e espaço para os finalmente, começaram os problemas.

Todos novatos em viagens assim, apareceram com coisas das mais malucas de se levar para aquele fim de mundo: o Milton com casaco do exército russo pesando uns 30 quilos, comprado num brechó, porque se fizesse frio ele tava guardado.

O compadre Euclides queria levar daqui quatro engradados de cerveja que podíamos comprar já quase lá. O Shu apareceu com um baita provolone de oito quilos, que era para beliscar, nos entremeios de almoço e janta dos 15 dias que nós seis íamos passar na beira do rio.

Não teve ninguém que aparecesse sem alguma encrenca.

Deu que, juntando os trens de uns com as tralhas dos outros, não cabia tudo na Veraneio e na carreta do barco. Atrasamos um dia da viagem para ajeitar o que ia e o que ficava.

Resolvida a carga, tomamos o rumo de Britânia, na beira do rio Vermelho, e de lá para o Itacaiu, ponto de travessia do Araguaia, nosso destino final. Mais de dois quilômetros de viagem, com os últimos trezentos e poucos em terra batida, pura costela de vaca e poeira, muita poeira...

Chegamos na beira do rio lá pelas 10 horas da manhã. Toca a descarregar a carga toda, botar o barco n'água e procurar uma praia boa para nos ajeitarmos.

Finzão de tarde, acampamento montado depois de muito trabalho e canseira, os companheiros resolveram descansar, mas eu e o Euclides, não agüentando a ansiedade, fomos dar “só uma rodadinha” para matar a vontade há tanto tempo guardada.

Barco descendo macio na correnteza pouca do Araguaia, ouvindo o pio triste dos jaós, o cansaço acumulado da viagem juntado com o calor que fazia lá, foi dando aquela modorra gostosa e nós rodando, meio dormindo meio acordados, só sentindo o chumbo rolar no fundo do rio...

Foi quando um boto curioso chegou sem aviso, botou a testa fora d'água logo ali atrás, bem nas minhas costas, juntinho do motor e soltou aquele suspiro comprido de quem tava prendendo o fôlego: PSSHHHHHHHHH!!!

Num pulo só, passei por cima das costas do compadre e fui parar no bico do barco, coração saindo pela boca e os olhos estalados procurando lá o que fosse a fonte do barulho.... Faltou um nadica para cair n’água!

Ainda hoje, aqui mesmo em São Paulo, no meio do trânsito, de vez em quando eu lembro daquele susto... Tem caminhão com freio a ar que faz PSHHHHH igualzinho o danado do boto!!!"

Oscar Nolf é pescador e contador de histórias (www.tbftt.com.br)