Tenho insistido - é verdade que quase sem nenhum sucesso - na necessidade de se aumentar a competição bancária entre nós. Nos últimos anos temos observado o processo inverso, de aumento da concentração no setor financeiro, o que torna ainda mais difícil baixar as taxas de juros. Além do alto custo do dinheiro, o volume da oferta de crédito ao setor privado veio caindo ao longo do tempo e hoje se encontra abaixo de 25% do PIB. Em países como no Japão, nos Estados Unidos e na Eurolândia, o normal é um volume de crédito acima de 80% ou 85% e até mesmo superior a 100% do PIB. No Brasil, quando existia um pouco mais de competição no sistema bancário, também era normal um volume em torno de 70%. A redução dramática na oferta de crédito ao setor privado foi certamente um dos fatores que mais prejudicaram o crescimento de nossa economia nos anos recentes.
Felizmente, estamos assistindo agora algumas iniciativas de expandir a oferta do crédito, que apesar de modestas já estão produzindo resultados positivos nos níveis de consumo e no próprio comportamento das taxas de juros. A idéia de expandir o crédito para os aposentados e os empréstimos em consignação para os trabalhadores é interessante porque permite a antecipação das compras de milhões de pequenos itens, estimulando o aumento da produção de bens de consumo. O cidadão pode adquirir desde logo o eletrodoméstico, o mobiliário, a TV, melhorando o seu bem-estar e aquecendo a economia. Com o acesso ao crédito bancário, ele certamente acaba por obter um preço final um pouco menor do que o que pagaria com a taxa de juros cobrada pelas lojas. A cada dia que passa se percebe que a taxa de juros está baixando nos setores em que há concorrência, o que demonstra que o que realmente faz falta no sistema é uma boa competição. O consumidor final se beneficia e ganha também o setor produtivo.
Já o crédito ao trabalhador na ativa está sendo poluído depois que a CUT e o PT se mancomunaram para impor a exigência da interveniência dos sindicatos que passaram a receber uma comissão sobre os empréstimos. Embora sob amparo da Lei, é um tipo de grilagem que deveria ser eliminado porque, além de imoral, opera na direção contrária ao objetivo de baratear o crédito e estimular o consumo e a produção. Não há nenhuma justificativa para se conceder graciosamente essa receita extra aos sindicatos, que não oferecem nenhum retorno ao pobre do trabalhador espoliado.
O autor, Antonio Delfim Netto, é deputado federal pelo PP-SP, professor emérito da USP. E-mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br