09 de julho de 2026
Geral

Um brasileiro na frente de batalha

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 4 min

O dia-a-dia da bauruense Márcia Regina de Oliveira Folkis mudou completamente após seu filho, o marine Fernando Rafael de Oliveira Folkis, tomar o rumo de Fallujah, uma das cidades ocupadas pelas tropas norte-americanas na Guerra do Iraque. A família reside há dez anos em Salt Lake City, Utah, Estados Unidos. Márcia está em Bauru em visita aos pais, mas sua atenção está centrada no Iraque.

Folkis é apaixonado por guerras

Fernando Rafael de Oliveira Folkis é nascido em Santos, mas viveu boa parte de sua infância e adolescência em Bauru. Em 1995, sua família se mudou para os Estados Unidos. “Desde pequeno ele sempre gostou de filmes com enredos militares e documentários sobre guerras”, relata Márcia Regina de Oliveira Folkis, sua mãe.

Em 2000, ao completar 20 anos de idade, Folkis decidiu que seguiria a carreira militar. Começou a pesquisar via Internet as opções para alistamento. Após avaliação, decidiu que tentaria o ingresso na tropa de elite da Marinha, os marines, também conhecidos como fuzileiros navais.

Antes de seguir para o treinamento inicial, Folkis e sua família receberam em casa um sargento marine. “Ele veio nos falar sobre como funciona a escola. Foi muito claro ao dizer: ‘Vamos destruir tudo aquilo que você construiu no seu filho para construir um novo homem’. Isso me assustou um pouco, mas era o que ele queria”, confessa Márcia.

A mudança

Seu filho partiu para a escola de formação de fuzileiros navais. “Foram seis meses de completo isolamento. Não sabíamos nem mesmo onde ele estava. Chorei por dois meses seguidos”, conta. Ao final dos 180 dias, ela foi avisada de que o filho estava em San Diego, Califórnia. A formatura do novo marine já estava preparada.

“Quando cheguei lá, não o reconheci. Ele estava completamento diferente. A primeira sensação foi de arrependimento porque acho que meu filho sofreu muito. Mas depois senti muito orgulho dele”, afirma.

Márcia, que já ficou 18 meses sem ver o filho, revela que os marines têm salário de US$ 1.500,00 (cerca de R$ 4.050,00) para enfrentar uma vida de sacrifícios. Seu filho já está completando quatro anos no grupo de fuzileiros navais dos Estados Unidos. O contrato é de oito anos.

Mesmo depois de dar baixa militar, Folkis terá privilégios como marine da reserva. O governo pagará sua faculdade. Ele também terá vantagenss nos concursos públicos realizados nas esferas municipal, estadual e federal, além de facilidades para financiamento de imóveis.

Quis o destino que o marine Folkis nascesse em 11 de setembro, dia em que, em 2001, as torres gêmeas do World Trade Center, em Nova Iorque, vieram abaixo após o atentado com aviões, utilizados como bombas aéreas contra as imensas edificações de ferro e aço.

Ele já havia conseguido o green card, documento que legaliza a permanência de estrangeiros em terras norte-americanas. Mas seu ingresso nas forças armadas o premiou com a cidadania estadunidense. Portanto, luta contra a resistência iraquiana na condição de soldado norte-americano.

“Fiquei apavorada quando soube que ele iria para o Iraque. Chorei muito. Me perguntei: ‘E agora? Deixei o Brasil, levei um filho para os Estados Unidos e agora ele vai para a guerra’. Mas foi uma escolha dele”, diz Márcia.

Ela revela que o filho sempre afirma que, se tombar em combate morrerá feliz. “Ele fala isso com convicção. De certa forma, essa afirmação me conforta”. Mesmo em terras iraquianas, Márcia conta que a impressão que lhe é passada pelo filho é de tranqüilidade.

“Fallujah é a cidade mais segura do Iraque hoje”, observa a mãe do marine. Folkis se comunica com Márcia pelo menos uma vez por semana, geralmente aos domingos. “Nos falamos por dez minutos. A primeira pergunta é se ele está bem, embora sei que mesmo ferido eu não ficaria sabendo. Isso já ocorreu em outras ocasiões”.

Praticamente no meio do deserto iraquiano, o marine reclama do calor intenso que afeta as acomodações da tropa. Sua função assemelha-se a de um almoxarife. É dele a responsabilidade de controlar o pedidos de reposição de munição para as frentes de batalha.

Folkis ainda tem pelo menos cinco meses de permanência no Iraque. A previsão é de que a tropa retorne em setembro para os Estados Unidos. Há quatro anos na condição de marine, Márcia diz que o filho pretende em breve dar baixa.

“Seu desejo, depois de sair, é ficar viajando seis meses pelo Brasil. Nesse período, ele ainda continuará recebendo o salário de US$ 1.500,00 por mês (cerca de R$ 4.050,00)”.

Embora o filho tenha nascido em Santos, ela e o marido, Evaldo Folkis, são bauruenses. Foram para os Estados Unidos em 1995 à procura de melhores condições de vida e salários. Hoje, toda a família está legalizada através do green card.

O filho mais velho, hoje marine, viveu sete anos em Bauru, cidade que tem forte referência na sua lembrança porque foi aqui que realizou os estudos do ensino fundamental e parte do segundo grau.

A reportagem do Jornal da Cidade tentou manter contato com Folkis via email, mas não obteve resposta.