“Na minha época, a faculdade fervilhava. Se não estávamos na aula, sempre havia um debate, uma apresentação de teatro... Hoje em dia, mal vejo meus filhos interessados em debater qualquer assunto. Quem dera eles tivessem anos de graduação como os que eu tive.” O depoimento da professora aposentada Maria Rachel Vilela, 59 anos e mãe de dois jovens universitários, define com apuro a quantas anda a vida cultural dentro das instituições de ensino superior de Bauru.
Se há 30 anos, no período da ditadura no País, as universidades e faculdades atuavam como verdadeiros celeiros culturais e produtores de inovações, que se irradiavam pela cidade com a mesma velocidade com que os censores barravam as iniciativas, atualmente o que se percebe são ações isoladas, que não conseguem o envolvimento dos alunos com a comunidade local.
E não é por falta de estudantes que a vida cultural das instituições é pequena, e prova disso são as dezenas de festas universitárias todas as semanas, sempre lotadas. Atualmente, Bauru tem cerca de 23 mil estudantes universitários, dos quais cerca de 40% são oriundos de outras cidades e outros 20% mudaram-se para o município a fim de concluírem seus estudos, de acordo com levantamento do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas (Inep) do Ministério da Educação, baseado no Censo Escolar de 2002 e dados atuais das instituições.
Na opinião da professora Maria Rachel, que participou de grupos de teatro e festivais de poesia, a situação é conseqüência da própria realidade atual dos alunos e das instituições. “Os jovens dessa geração já nasceram cercados por TV, videogame, computador e tudo é muito rápido. Eles não estão mais dispostos a passar uma tarde toda na faculdade discutindo teorias ou assuntos que são notícia. Eles precisam interagir, sentir que estão participando”, aponta.
O professor e diretor teatral Paulo Neves, 56 anos, concorda com a “falta de efervescência cultural” nas instituições, como ele mesmo indica, e critica o distanciamento das faculdades e universidades da comunidade. “O que falta é levar a universidade aos bairros. Ele existe, mas é muito pouco perto do que poderia ser – não só na cultura, mas em todas as áreas”, afirma.
Pela situação do País, nas décadas de 1970 e 80, toda iniciativa e manifestação cultural era diretamente ligada à política, mesmo que apenas ideologicamente, segundo o diretor cultural. “Fui presidente do Diretório Acadêmico Veritas mas nunca fui de carregar bandeiras. Naquele momento, a movimentação cultural era totalmente ligada ao momento político e nós questionávamos essa situação. Você fazia uma política cultural engajada e bem-feita, estruturada. Tínhamos um porquê”, relembra Neves.
Ele enfatiza que os anos de ditadura militar e pressão da censura em todos os meios culturais provocaram uma reação que poderia ser classificada como positiva. “Pressionado, você encontra formas e vertentes para fazer algo importante e interessante. É o que ocorreu com compositores como Chico Buarque, Milton (Nascimento), Ivan Lins. Os estudantes também encontraram suas formas de se manifestar. O que se vê hoje é o ‘deitado eternamente em berço esplêndido’”, critica o diretor teatral.
Ações e reações
Para o empresário Alberto Dabus, 49 anos, que foi presidente do extinto Centro de Convivência Estudantil por dois anos na década de 1970, os estudantes das faculdades que viriam a ser a Universidade Estadual Paulista (Unesp) eram organizados e articulados, especialmente por conta do momento político e das ações da organização. “Promovíamos muitas atividades, apresentações e festas para unir os cursos das faculdades. Na época, a TV não tinha tanta presença nas nossas vidas e o importante era a convivência. Disso surgiam as idéias”, comenta.
Ele relata que a comunidade também era envolvida nas atividades por conta da localização do centro de convivência, no Centro da cidade. “A comunidade se integrava, freqüentava os mesmos ambientes e participava dos eventos que promovíamos. Não era um círculo fechado dos universitários, era algo que envolvia todos os jovens e as famílias”, frisa Dabus.
A conseqüência dos anos de ditadura e de uma geração que cresceu em frente à TV é a falta de iniciativa para criar ações e buscar revoluções nas instituições de ensino, na opinião de um universitário de 23 anos, aluno de um curso de exatas de uma instituição privada da cidade e que preferiu não se identificar. “Não estou dizendo que não temos contra o que lutar, mas a minha geração é muito acomodada. Não sou daqueles que usa camiseta do Che Guevara e inventa protestos por nada, mas Bauru é uma cidade universitária parada, e isso me deixa indignado. Vejo algumas coisas acontecendo na área cultural e nas faculdades, mas nada é muito concreto”, destaca.
Sílvio Luiz da Silva, aluno do curso de relações públicas da Unesp, acredita que as iniciativas existentes ainda são aquém do potencial que as instituições da cidade possuem. “O que é feito parte da movimentação de alunos, na maioria das vezes, e com dificuldades até impostas pela universidade, pela burocracia. Há espaço e pessoas dispostas para fazer coisas legais, mas falta o empurrão da universidade”, diz.
Eliane Aparecida de Almeida Barros, estudante de jornalismo, concorda com as dificuldades e a burocracia nas instituições e destaca ainda a necessidade de apoio dos meios de comunicação para os eventos universitários. “Poderia ser melhor, ainda mais porque a cidade tem cursos de artes, de jornalismo, que seriam mais voltados para essa área de cultura, mas tem muita coisa que acontece que não é divulgada. Dois anos atrás, teve um laboratório de teatro, mas por falta de verba foi cortado”, lembra.