09 de julho de 2026
Articulistas

Os dentes do sultão


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O combate incansável ao nepotismo e o movimento pela democratização de oportunidades vêm colecionando páginas de vitórias em todo Brasil. Exemplo mais recente é o da Câmara Municipal de Guatapará, pequeno município da região de Ribeirão Preto, que resolveu acabar com o trem da alegria e proibir a contratação de parentes do prefeito, do vice e de secretários. A emenda à Lei Orgânica do Município (LOM) que proíbe o nepotismo foi aprovada em 15 de março. Motivos não faltam: em sua gestão, o ex-prefeito Luiz Carlos Stella (PFL), o Calu, nomeou quase 40 parentes - quatro filhos, quatro irmãos, sobrinhos, noras, genros, cunhados, cunhadas e primos. Peter Drucker, guru da administração, um dos mais respeitados autores da área em todo mundo, defende que um executivo sério (inclua-se aqui vereadores e prefeitos) que tiver parentes interessados em trabalhar em suas empresas devem, em último caso, pagar para que eles fiquem em casa. .

O argumento de que o currículo e a experiência deste ou daquele familiar justifica a contratação deve ser definitivamente afastado pois, se assim o for, que ele concorra a oportunidades no mercado. O argumento de que a contratação justifica pela notória especialidade deste ou daquele parente também é inadequado, pois cobre de sombras a verdade do que seja uma competência notória ou de domínio de uma fatia, por mínima que seja, da população ou de alguém de outra comunidade. Não basta ser honesto; é preciso parecer ser honesto.

Conta uma história árabe que um sultão sonhou ter perdido todos os dentes. Logo que despertou, mandou chamar um adivinho para que interpretasse seu sonho e este lhe explicou que cada dente caído representava a perda de um parente dele. O sultão ficou enfurecido. Chamou os guardas, ordenou que lhe dessem cem açoites e mandou que trouxessem outro adivinho. Este, por sua vez, revelou que grande felicidade estava reservada para o sultão, pois o sonho que ele haveria de sobreviver a todos os seus parentes. Muito agradecido, o sultão mandou dar 100 moedas de ouro ao segundo adivinho e, quando este saía da sala do trono, um dos palacianos lhe disse admirado: “Não é possível! A interpretação que você fez foi a mesma que o seu colega havia feito. Não entendo porque ao primeiro ele pagou com 100 açoites e a você com 100 moedas de ouro.” E ele respondeu: “Lembra-te meu amigo, que tudo depende da maneira de dizer...” Para quem está no poder e quiser advinhar o seu futuro, quando for acometido de uma recaída nepotista, lembre-se sempre do sultão: antes de pensar na sobrevivência de seus parentes, pense na sua sobrevivência política, pois, quanto mais você sobreviver, se assim quiser, poderá ajudá-los de outras formas.

O autor, Pedro Antonio Domingues, é professor da Universidade São Francisco