08 de julho de 2026
Articulistas

A Terra, espoliada


| Tempo de leitura: 3 min

Para quem não leu o relatório encomendado pela ONU a 1.360 cientistas, a Avaliação Ecossistêmica do Milênio, um breve resumo. Os recursos do planeta estão se exaurindo. A pesca se dá em quantidades superiores à de reposição dos cardumes. Na África setentrional e oriente médio, usam-se 120% dos recursos renováveis. A Terra já perdeu 20% dos seus corais. Somem-se a estas cifras as conseqüências do efeito estufa e não será difícil concluir, sem ser alarmista, que o planeta está caminhando para o colapso. Para aqueles que gostam de usar o termo “desenvolvimento sustentável”, tão em moda, caberia perguntar o que querem dizer com “sustentável”.

Como pode ser sustentável o crescimento de países como a China, de quase 10% anuais; da Índia, em torno de 7%; do Brasil, em 5% no ano passado; e o de outras nações que precisam porque precisam crescer cada vez mais? E, depois, crescimento para quem?Para uma pequena parcela da população, já que mais de 1 bilhão de pessoas têm deficiência de suprimento de algo tão básico como a água. Na China, 360 milhões de pessoas bebem água imprópria para o consumo. Quase 3 bilhões, a metade dos habitantes da Terra, não dispõem sequer de saneamento básico.

Num círculo vicioso, o aquecimento global, segundo a Embrapa, fará com que as áreas agriculturáveis do Brasil sejam reduzidas à metade em um prazo de 50 a 100 anos. É provável que o estudo da ONU esteja correto, senão pela quantidade e diversidade de cientistas participantes, por vir a corroborá-lo uma pesquisa do Laboratório de Monitoramento e Diagnóstico do Clima no Havaí, que dá conta de que a concentração de CO² chegou a 378 partes por milhão. Existe também a poluição biológica, que é a suspensão de partículas oriundas de pele, pêlos, pólen e vegetais na atmosfera, que talvez seja equivalente a um quarto dos aerossóis, os quais exercem impacto na formação de nuvens e do clima, segundo trabalho publicado na revista Nature. Adicionalmente, todo animal ruminante, como o boi, emite metano, que é outro gás prejudicial à atmosfera. A cada dia a medicina aumenta a expectativa de vida, o que vem causando um crescente desequilíbrio previdenciário. Este é o grande drama do Japão, onde a população jovem cresce a taxas menores que aquela acima de 65 anos; e isto poderá implodir a sua economia. O mundo não pode parar de crescer, embora precise disto.

Numa avaliação fria, para que houvesse um equilíbrio, talvez o ideal seria que as pessoas morressem em torno dos 60 anos, para que seus filhos e netos pudessem sobreviver após 2050 ou 2100. Do ponto de vista da continuação da humanidade, o ideal seria que os países tivessem crescimento zero. Uma previsão - cabe sempre desconfiar de previsões - do Instituto Nacional de População do Japão sugere que, mantidas as taxas de natalidade e longevidade presentes, o último japonês deixaria de existir lá pelo ano 3.400. Um exagero, já que acreditar que a humanidade durará mais 1.400 anos, neste ritmo, é uma ingenuidade. Livre dos humanos, o planeta, que é ainda relativamente jovem, se recuperaria. Mas é finito, tornar-se-á inabitável dentro de mais uns 5 bilhões de anos, quando o Sol entrará em colapso naturalmente.

Até lá, a Terra, cicatrizada, voltaria a oferecer condições de vida, e o processo de evolução das espécies recomeçaria; e, se seres ditos pensantes voltassem a habitar este planeta, se a história contrariasse a lenda, que diz que ela sempre se repete, seria possível que uma nova humanidade pudesse evoluir de maneira realmente sustentável. Porém, com sua existência limitada ao tempo que resta de combustível ao nosso Sol, mais que suficiente para que civilizações se refaçam e se destruam várias vezes.

Talvez seja isto mesmo: a humanidade, qual uma criança, teria de cair e levantar-se repetidamente, até aprender, podendo, então, passar para uma nova etapa de evolução, em algum ponto deste vasto universo, ou de outro, desconhecido.

O autor, Luiz Leitão, é administrador e articulista