09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

O esquadrão da morte e o silêncio dos inocentes


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O pensamento reacionário e a cegueira social, vitaminados com a falta de informação jurídica de milhares de brasileiros, levam setores conservadores da nossa sociedade a ficar afirmando maldosamente que os direitos humanos só protegem bandidos. Ledo engano ou manipulação. Os direitos humanos não protegem bandidos e sim o cumprimento das leis e, diga-se de passagem, foram feitas para todos.

Às vezes, percebe-se nas rodinhas das lanchonetes, igrejas, colégios e, infelizmente, até nas faculdades de direito, pessoas defendendo o extermínio e até o esquadrão da morte. Num país onde 98% se auto-intitulam cristãos de alguma fé religiosa, torna-se uma enorme contradição. Ora, um particular tem o direito de sonhar com a volta do tempo jurássico das cavernas, onde se resolvia o conflito no dente por dente, olho por olho. Porém, o Estado materializado no Poder Judiciário não age com a emoção, e sim com a razão, no sentido de observar o cumprimento das leis.

Outro absurdo que se vê falar por aí é que na cadeia brasileira tem mordomia que transforma a cela num genérico de paraíso. Por Júpiter, nunca vi pessoas que afirmam isso ter a disposição de querer ir para cadeia. Aí, pergunto: se é tão bom por que ninguém quer ir para lá? Aliás, é igual à história do céu: todos querem ir, mas ninguém quer morrer por pior que esteja a vida aqui.

Quando a sociedade começa a defender a barbárie social, acontece fatos como o ocorrido no Rio de Janeiro na semana passada. Na Baixada Fluminense, 30 pessoas foram covardemente assassinadas com tiros a esmo de policiais militares revoltados com a apuração de corrupções feita pelo comandante do 15.º BPM, em Duque de Caxias. Sete das vítimas eram crianças. De todos os mortos, só dois tinham passagem pela polícia. O restante era gente inocente, silenciada hoje debaixo da terra.

As pessoas metem o pau nos direitos humanos que defendem o cumprimento das leis e não os bandidos até o exato momento que o destino cruel e injusto socialmente não vitime alguns de seus familiares. Aí, sim, elas sentem na pele como não é recomendável defender os julgamentos ou execuções sumárias.

Eles começam a matar bandidos, depois matam inocentes, depois matam por ciúme, depois matam por preconceito e, finalmente, matam por prazer. Um dos integrantes do Esquadrão da Morte, que atuava na década de 70 em São Paulo, afirmou recentemente em entrevista na TV que, na época, ele e seus comparsas mataram todos os maridos das namoradas das quais ele se lembrava e sabia onde residia. Acho que não preciso dizer mais nada.

E a pena de morte oculta que existe no Brasil só vitima pretos e pobres. Quem chegou a checar as imagens dos corpos espalhados no chão na Baixada Fluminense logo chegou ou chegará a essa conclusão. Enquanto isso, Malufs, Jorginas, Lalaus e Rocha Matos da vida estão tranqüilos, mesmo porque para ladrões do colarinho branco a nossa sociedade não pede penas severas e, se duvidar, tomam até champanhe juntos.

Não defendo penas leves para criminosos e sim que se cumpram as leis. Aliás, o maior crime do Brasil é a concentração de renda que criou este holocausto social em que vivemos.

PS - É lamentável que um Estado das proporções de São Paulo não tenha Defensoria Pública para os mais humildes.

Pedro Valentim