09 de julho de 2026
Cultura

O Interior em cartões-postais

Thaís da Silveira
| Tempo de leitura: 4 min

Imagine percorrer as principais cidades do Interior paulista no início do século 20, a bordo de um trem. Essa é a viagem que João Emilio Gerodetti e Carlos Cornejo oferecem aos leitores em “Lembranças de São Paulo - O Interior Paulista nos Cartões-Postais e Álbuns de Lembranças”, lançamento da Solaris Edições Culturais.

O grande diferencial do livro é que todo esse percurso é feito apenas através de cartões-postais. No “roteiro” estão Jundiaí, Bragança Paulista, São José dos Campos, Taubaté, Campos do Jordão, Aparecida, Guaratinguetá, Campinas, Pirassununga, Rio Claro, Jaú, São Carlos, Jaboticabal, Barretos, Ribeirão Preto, Batatais, Itu, Piracicaba, Sorocaba, Botucatu, São Manuel e Bauru, entre outras cidades.

A obra é a terceira de uma trilogia. O primeiro volume retratou a Capital do Estado e o segundo abordou as cidades do litoral paulista. “No volume dedicado ao Interior, colocamos como se fosse uma viagem no tempo e no espaço, feita através de cartões-postais, mas tendo como ponto de vista alguém que na época visitasse o Interior. Embarcaria nos trens e percorreria as cidades”, conta o jornalista Carlos Cornejo, um dos autores do livro.

Para ele, os melhores registros iconográficos de muitas cidades do Interior paulista foram, durante muito tempo, os cartões-postais e os álbuns de lembranças, muitos deles repletos de postais.

“Na época, era a principal fonte de imagens da cidade. O cartão necessariamente tem de ser feito em alta qualidade e tem de ser emblemático, simbólico e representativo de cada cidade. Invariavelmente, tem imagens das principais ruas, da estação de trem, do grupo escolar, etc. É um registro muito interessante”, destaca o jornalista.

Outro aspecto importante é que os cartões-postais muitas vezes registram o mesmo ponto da cidade em épocas diferentes. “Dá para ver a evolução dos locais - como eles se modificam, como vão surgindo arranha-céus, como evolui a paisagem urbana, além da moda, dos carros”, salienta Cornejo.

O início do século 20 foi escolhido porque é considerado a época de ouro do cartão-postal. As fotografias eram feitas apenas por profissionais já que não era comum as pessoas terem câmeras pessoais em casa. A principal fonte de imagens, portanto, eram os cartões. “O impacto deles na época pode ser comparado ao da TV, hoje. Os primeiros cartões eram alegóricos. Tinham imagens românticas, visão do mundo idealizado, cores bonitas. Percebe-se uma estética da época muito característica”, analisa o autor.

Nas duas páginas de “Lembranças de São Paulo” dedicadas a Bauru, há cartões coloridos - as cores eram aplicadas manualmente - que mostram alguns pontos da cidade na década de 20. Na época, a praça Rui Barbosa ainda se chamava Jardim Municipal e fazia jus ao nome. A rua Batista de Carvalho ainda era de terra, com construções baixas, assim como a avenida Rodrigues Alves. Há também foto do primeiro Grupo Escolar de Bauru, inaugurado em 1913, que hoje é o Colégio São José.

Botucatu participa do livro com 13 postais. Eles retratam, entre outros locais, a avenida Floriano Peixoto, por onde circulavam carroças; a rua Riachuelo (atual Armando de Barros), ainda de terra e destinada a pedestres, o coreto do Jardim Público e a Igreja Matriz.

Já São Manuel tem cartões-postais da Estação Sorocabana São Manuel, do prédio do Paço Municipal e do Mercado Municipal, entre outros locais. Os registros são de 1915.

“No caso de Bauru, a cidade era muito diferente do que é agora. Ficava numa região remota do Estado, que era porta do sertão. Depois de Bauru, havia terras ainda não cartografadas”, expõe Cornejo. Ele destaca que o livro atende a diversos interesses - desde o idoso saudoso até crianças curiosas, estudantes e turistas.

Pesquisa

O trabalho de pesquisa do terceiro volume durou cerca de dois anos. Praticamente todas as cidades citadas no livro foram visitadas para comparação das imagens in loco. O acervo inicial, de quase 10 mil imagens, foi selecionado e reduzido às 500 fotografias consideradas mais representativas do período.

Algumas imagens foram restauradas porque estavam danificadas ou manchadas. Foram mantidas as marcas mais significativas, como selos ou caligrafias.

Não foram incluídas cidades que não tinham registros iconográficos significativos. “Na época, eram vilarejos que nem sempre tinham um fotógrafo profissional ou alguém que se interessasse em produzir postais.

“O fato de ter cartão-postal revelava o status da cidade. Se não houvesse cartões, talvez não fosse uma cidade importante. Na época, era um meio de comunicação importante porque eram raros os jornais ilustrados. Então, você enxergava o mundo através dele. Em quase todas as casas havia um álbum de cartão-postal. Era quase como um álbum fotográfico”, explica Cornejo.

• Serviço

Outras informações sobre “Lembranças de São Paulo - O Interior Paulista nos Cartões-Postais e Álbuns de Lembranças” podem ser obtidas na Solaris Edições Culturais. O telefone é (11) 3675-0307.