08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

É fantástico!


| Tempo de leitura: 4 min

Depois de baixada a poeira, inclusive da emoção, do corpo do Santo Padre baixar à sepultura, podemos agora, ao enxugarmos nossas lágrimas, analisarmos de maneira mais coesa todo o desenrolar do martírio, morte, velório e sepultamento que gerou comoção mundial, tentando, dentro de nosso pobre raciocínio, entender a magnitude de tão bela e contemporânea alma, conhecida por todos nós.

Outros velórios foram postos de lado, casamentos foram adiados, campeonatos foram interrompidos, festas foram suspensas, encontros políticos reagendados, às vigílias foram anexadas milhões de pessoas, fiéis superlotavam igrejas, as orações se estenderam, o apelo aos céus foram redobrados.

A realidade estava patente no semblante de todos.

A tristeza era generalizada.

O catolicismo estava de luto.

Milhões de pessoas ainda devem estar se perguntando de onde veio esta força hercúlea do papa, que mesmo morto e exposto conseguiu agregar um número incalculável de gente de todas as raças, posição social, chefes de Estado, reis, rainhas, príncipes, pretos, brancos, pobres, ricos, representantes de todos os credos e até de quem não crê em Deus, numa demonstração de respeito e admiração, tristeza e sentimento de perda.

Como pode um homem depois de morto conseguir ser o centro das atenções do Planeta?

O que há de especial em Karol Woityla, chefe da Igreja Católica, sendo o catolicismo mais uma religião entre tantas outras? Por que ele é especial?

João Paulo II não era apenas mais um papa no Vaticano.

Logo que recebeu o título de chefe do Clero Apostólico Romano, João Paulo II, determinado como era, resolveu sair da clausura, pois não queria ser um intocável do imaginário popular.

Ele tinha dentro de si o desejo de transpor barreiras, ver de perto o seu rebanho, levar sua mensagem pessoalmente, bem longe das muralhas da Santa Sé.

Sentia a necessidade fremente de ir ao encontro das massas mais populares, dos mais oprimidos, dos deserdados pela sorte, dos seus irmãos, filhos do mesmo Deus.

Sabia da importância do seu cargo, as vantagens que ele poderia lhe proporcionar e sem nenhuma cerimônia, falava abertamente das injustiças sociais, da violência, da prostituição, da reforma agrária, das ditaduras, do muro da separação e da vergonha, das guerras inúteis e dos massacres resultantes da fome e da miséria.

Nunca se deteve ante as barreiras impostas em alguns países, respaldado que estava pela bandeira branca da paz, símbolo constante em suas mãos santas.

Não tinha o hábito de alojar-se em palácios, pois até procurava a simplicidade e rusticidade dos aposentos que lhe acolhiam nas suas inúmeras viagens.

Através de suas tentativas, poder de decisão e convencimento, quantas mãos inimigas não se entrelaçaram firmando a paz?

Na história do papado, que papa adentrou em uma favela? Qual quebrou o cerimonial para tocar as mãos do povo que em delírio gritava seu nome e que se satisfazia apenas com a brandura de seu olhar?

Qual deles teve a humildade de abençoar o solo visitado com um terno beijo?

Qual de nós tem o crescimento espiritual a ponto de procurarmos um inimigo para perdoá-lo e abençoá-lo?

Qual o quê! Ele era diferente!

Era um espírito de luz do mais alto quilate, com uma sublime missão neste Planeta, um abnegado líder espiritual, determinado e puro.

Seu carisma atingiu a todos e agora deve estar num lugar muito especial, onde poucos têm a chance de atingir.

Fico a imaginar, em medíocre comparação: se o papa não tiver ido ao encontro de outros espíritos de adiantado estado de pureza, para onde vou eu, já que sou embrutecido, ainda acho que é olho por olho e dente por dente, não consigo ainda perdoar meus inimigos, guardo rancor e em qualquer brecha da vida dou o troco à altura do que sou atingido?

Pobre de mim e de milhões iguais a mim. Karol Woityla cumpriu sua missão com muita dignidade.

João Paulo II é um exemplo a ser seguido para que seus esforços pelo bem comum, pela igualdade social, pela fé e a paz não se percam nas mentes curtas dos mandatários de Nações e até do próprio Clero. Karol Woityla, João Paulo II, o Santo Padre, o João de Deus, continuará na sua essência, como símbolo da paz, da fé e do amor ao próximo.

Carlos Cardoso - Radialista/Escritor/Poeta