09 de julho de 2026
Geral

Bauru tem 60% mais furtos que Capital

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 5 min

Apesar de estar registrando uma queda gradativa ao longo dos últimos quatro anos, Bauru apresentou, em 2004, um índice de furtos 60% maior do que na cidade de São Paulo. Foram 2.269,09 ocorrências por grupo de 100 mil habitantes, contra 1.424,41 na Capital. Os dados são da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo.

Para a polícia, isso significa uma intensificação no registro das ocorrências; para a promotoria de Justiça, o alto índice de furtos reflete a condição de vida da cidade; já para a população, é sinal de insegurança e até de falta de cuidado.

Uma pesquisa realizada pelo Ministério Público de São Paulo, durante uma audiência pública no último dia 1, na Instituição Toledo de Ensino (ITE), mostrou que a criminalidade é a maior preocupação da população do município, seguida pela saúde pública e pelo combate à corrupção.

“Bauru não é uma cidade rica e isso influencia na modalidade de crime que mais aparece no município”, salienta o promotor de Justiça Paulo Sérgio Foganholi.

A falta de emprego para a população é outro fator determinante para a alta concentração de furtos em Bauru, já que muitos delitos são cometidos por pessoas que agem motivadas pela sua condição financeira. “Já peguei muito caso de furto em supermercado, no qual a pessoa não tem um perfil criminoso, mas age por necessidade ou impulso, aproveitando a ocasião”, comenta o delegado-adjunto do 4.º Distrito Policial (DP) de Bauru, Dinair José da Silva.

Omissão

Mesmo sendo alarmantes, os números da Secretaria de Segurança Pública nem sempre refletem exatamente a realidade.

Isso porque eles são relativos à quantidade de boletins de ocorrência (BOs) lavrados nas delegacias da cidade. Mas nem todos os furtos são oficializados. “As próprias vítimas, muitas vezes, não fazem BO após o furto. Umas por descrença na solução do caso; outras, por falta de interesse em elucidar o crime”, destaca Foganholi.

O capitão da Polícia Militar (PM), Benedito Roberto Meira, reitera essa informação e vai além. “Muitas pessoas só fazem o registro do crime no caso de necessitar do BO para apresentar à seguradora ou para ter o bem de volta, se o furto for do veículo”, salienta.

Ele diz que a disparidade entre o índice de furtos registrados em São Paulo e em Bauru também se acentua porque na Capital não há uma cultura de oficializar o crime. “Aqui nós fazemos questão de registrar o furto, para que possamos ter uma estatística o mais próximo da realidade possível”, explica. Esses indicadores, segundo ele, ajudam a mapear o crime na cidade.

A pena para quem for condenado por furto varia de um a quatro anos de prisão. Mas é difícil encontrar nas penitenciárias pessoas que tenham sido condenadas apenas por esse crime, segundo o promotor de Justiça Paulo Sérgio Foganholi. Ele explica que vários fatores contribuem para isso.

O principal deles é que as penitenciárias já estão superlotadas e não têm condições de abrigar criminosos que tenham cometido crimes desse porte.

“A preocupação maior é reduzir os custos dos presídios. Então, não é usual colocar na cadeia uma pessoa que tenha cometido um furto primário, o primeiro deslize da vida dela”, afirma o promotor.

Foganholi salienta que, quando é condenado, muitas vezes o criminoso cumpre a pena em regime aberto. “Eu garanto que todos que estão nessa condição fazem de conta que estão cumprindo pena. Não existe fiscalização”, frisa.

As autoridades ouvidas pelo JC dizem que não têm uma estatística com relação à quantidade de crimes desse porte que são elucidados e nem de quantas pessoas são condenadas por furto. No entanto, Foganholi faz uma estimativa. “Eu acredito que para cada 100 furtos, há cinco condenações. Noventa e cinco por cento se perdem no meio do caminho”, estima.

Em outros casos, o ladrão não chega nem a ser levado à Justiça. O problema começa pela falta de interesse da vítima em fazer o BO. Sem o documento, a polícia não tem como investigar o crime.

Quando o boletim é feito, há a dificuldade de se encontrar o autor do furto. Isso porque ele se desfaz rapidamente da prova do crime, transformando-a, muitas vezes, em dinheiro para comprar droga. “Os criminosos que roubam residência, por exemplo, estão atrás de coisas que tenham comércio fácil. Ninguém rouba uma tevê e a leva para casa para assisti-la”, frisa Silva.

O delegado ressalta que assim que é feito o BO, o próximo passo é abrir inquérito para apurar o caso. “Nós fazemos diligências em pontos estratégicos, nos quais os produtos geralmente são comercializados”, salienta.

À PM, cabe o trabalho de prevenção. De acordo com o capitão Meira, a Polícia Militar promove campanhas e alerta a população para que se precavenha desse tipo de delito. “O furto, ao contrário do roubo, é um crime que pode ser evitado. Para isso, é preciso tomar certos cuidados, dificultando ao máximo a ação dos bandidos”, comenta.

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Prejuízo e indignação

Embora seja um crime que não tenha forte apelo emocional, já que não há - na maioria dos casos - ameaça à vida e violência, o furto é um tipo de ocorrência que gera indignação e sensação de “invasão” às vítimas.

Temendo serem alvos novamente da criminalidade, elas preferem não se identificar à reportagem.

Maria (nome fictício) conta que sua casa foi furtada há cerca de dois anos. “Eu estava trabalhando e, quando cheguei, encontrei a janela arrombada e as minhas coisas reviradas”, diz.

Os invasores levaram o aparelho de tevê de 14 polegadas que acabara de ser adquirido pela família com muito sacrifício. “A gente tinha comprado a tevê à prestação e só a metade havia sido paga”, salienta.

Além do equipamento eletrônico, foram levados diversos objetos, tais como ferramentas, máquina fotográfica e roupas. Maria fez boletim de ocorrência, mas até hoje não sabe quem praticou o crime. O lugar da tevê continua vazio na sua estante.

Já o estudante Fábio (nome fictício) contabiliza em R$ 500,00 o prejuízo que teve na semana passada.

Ele deixou o carro estacionado durante a noite em frente à sua casa, na Vila Cardia. No dia seguinte, notou o estrago: além de levar o seu aparelho de som e todos os CDs que estavam no interior do veículo, o ladrão ainda entortou a porta do carro para arrombá-la. “Nunca imaginei que isso pudesse acontecer em frente à minha casa”, lembra.