A Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB/USP) está aguardando registro do Ministério da Saúde para colocar no mercado um novo medicamento para o tratamento de dentes sensíveis. O produto é resultado de pesquisas que vêm sendo desenvolvidas desde a década de 1980. Além de ter se mostrado mais eficaz, o gel também é muito mais barato que os importados utilizados atualmente no Brasil.
A hipersensibilidade dentária é uma sensação de choque nos dentes que algumas pessoas sentem principalmente ao comer alimentos doces ou gelados. Isso ocorre quando o esmalte dos dentes está danificado. A lesão no esmalte é causada por diversos fatores, incluindo desde uma alimentação inadequada (ácida) até formas erradas de escovação.
O coordenador das pesquisas, o cirurgião-dentista José Carlos Pereira, explica que o esmalte é a camada mais superficial dos dentes. É uma capa semelhante à porcelana, porém muito dura, que reveste outras estruturas dos dentes. Quando esse revestimento se rompe, por alguma razão, ele deixa exposta a dentina – uma camada mais delicada dos dentes.
De acordo com Pereira, a dentina é uma estrutura porosa, com milhões de microfurinhos. Cada buraquinho forma um “tubo”, que tem ligação direta com os nervos que passam no interior da raiz dos dentes (canal). Quando o estímulo (normalmente alimentos doces ou gelados ou jatos de ar) entra em contato com esses poros, ocorre uma alteração semelhante a uma descarga elétrica e o indivíduo tem a sensação de estar levando um choque nos dentes.
“Estudos mostram que 20% da população apresenta lesões no esmalte. Considerando-se que a população brasileira (estimada em 180 milhões de habitantes), são 36 milhões de pessoas com lesão no esmalte. Destas, 30% apresentam hipersensibilidade, ou seja, cerca de 11 milhões de pessoas, que poderão se beneficiar do novo gel”, comenta Pereira.
Segundo ele, ao ser aplicado, o gel promove uma calcificação na dentina. Em outras palavras, ele “entope” os poros, impedindo que o contato dos alimentos com a dentina afete os nervos. Com isso, elimina- se a dor.
Metodologia
A proposta dos pesquisadores do Departamento de Dentística da FOB era desenvolver um produto que fosse eficaz para o tratamento da hipersensibilidade dentária. Em quase duas décadas, várias substâncias foram testadas, até a obtenção desse gel.
Depois de passar por todos os testes exigidos por lei, o produto foi testado em seres humanos. Os pacientes foram divididos em quatro grupos. Dois deles foram tratados com medicamentos importados utilizados no Brasil. O terceiro foi tratado com o gel e um quarto grupo recebeu placebo (substância sem qualquer efeito medicamentoso).
“O gel desenvolvido pela FOB apresentou resultados mais interessantes a curto prazo e mais prolongados que os demais produtos. Um ano depois da aplicação, os pacientes relataram ter a mesma sensação que tinham imediatamente após o final do tratamento. Foram quatro aplicações, uma por semana”, informa Pereira.
Ele afirma que o produto foi aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e está aguardando o registro do Ministério da Saúde. A FOB já firmou convênio com uma empresa farmacêutica para a produção em larga escala e comercialização do medicamento. Pereira acredita que substância deverá estar no mercado nos próximos meses.
“Com a vantagem adicional de custar bem menos que os produtos importados disponíveis atualmente. O laboratório conveniado ainda não determinou o preço, mas deve haver uma redução de até um quinto no valor cobrado pelos concorrentes”, prevê.
O pesquisador salienta que o gel só será vendido para dentistas. A aplicação será feita em consultório para evitar uso indiscriminado. O procedimento consiste em passar o produto nos dentes lesados com o auxílio de um pincel, aguardar alguns minutos e retirar em seguida.
Além de tratar a hipersensibilidade dentária causada por lesões do esmalte, o medicamento também poderá ser aplicado após outros procedimentos, como a raspagem, que deixam dentes doloridos.