10 de julho de 2026
Saúde

Transplantados adotam esportes profissionais

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 4 min

A importância da prática regular de atividades físicas para a saúde vem sendo bastante difundida nas últimas décadas. Para pessoas que já apresentam alguma alteração de saúde, esse hábito torna-se ainda mais importante. Pois pacientes que passaram por transplante de órgãos estão dando um exemplo de dedicação. Eles estão se tornando atletas profissionais.

É o caso do dentista Heraldo Riehl, 36 anos, de Bauru. Menos de dois anos depois de passar por um transplante de coração, ele vai representar o Brasil na 15.ª edição dos Jogos Mundiais para Transplantados (World Transplant Games), que serão realizados entre os dias 16 e 24 de julho deste ano, no Canadá. Riehl disputará uma taça no tênis.

O dentista explica que a atividade física é fundamental para a qualidade de vida e mesmo para a sobrevivência de uma pessoa transplantada.

“Depois do transplante, a pessoa vai passar a vida toda tomando remédios imunossupressores, que são usados para enganar o sistema imunológico e impedir a rejeição do organismo ao órgão implantado. Só que isso também deixa o indivíduo muito mais suscetível a doenças”, explica.

A prática regular de uma atividade física fortalece o organismo e reduz vários dos chamados fatores de risco. Ela contribui para a manutenção dos níveis adequados de colesterol, triglicérides e glicemia; melhora a circulação sangüínea, que é responsável pela oxigenação de cada célula do corpo; melhora a condição cardiorrespiratória do indivíduo, entre tantos outros benefícios.

“As pessoas precisam entender que nós, transplantados, não somos inválidos. O transplante não é motivo para aposentadoria. Temos uma vida produtiva inteira pela frente. Por isso, precisamos cuidar muito bem da nossa saúde e os exercícios são essenciais. Tem gente que se satisfaz atravessando uma piscina. Eu decidi competir pesado”, acrescenta Riehl.

Trajetória

O dentista conta que joga tênis desde os 11 anos. Quando os problemas cardíacos apareceram, em meados da década de 1990, ele foi obrigado a se afastar do esporte. Ele enfrentava uma sensação de fadiga constante, com freqüente falta de ar, ao ponto de não conseguir caminhar algumas dezenas de metros.

Mesmo com o tratamento, a doença evoluiu, o coração dilatou progressivamente. Em 2003, Riehl foi internado no Hospital da Beneficência Portuguesa, em São Paulo, com insuficiência cardíaca. Foram vários meses de angústia à espera de um coração, até que o transplante pôde ser realizado, em setembro daquele ano.

“Quatro meses depois, entrei pela primeira vez em uma quadra de tênis. Fazia 8 anos que estava afastado do esporte. Com o tempo, conforme a recuperação permitia, comecei a brincar com a bola, bater paredão (jogando a bola contra a parede). Até que o médico disse que eu já poderia fazer exercícios mais pesados, mas que precisava aumentar a o esforço gradual e progressivamente”, lembra.

“Apanhei muito no começo. A primeira vez que me deram um smash (lance em que o jogador tem que rebater uma bola alta de cima para baixo) para bater, levantei o braço e desisti, com medo de que o marcapasso saísse do lugar. O aparelho foi ajustado, ficou solto sob a pele e hoje faço smashes e dou saques sem qualquer problema”, comemora.

Amante dos esportes, o dentista entrou em contato com o Ministério dos Esportes e descobriu os Jogos Mundiais para Transplantados. Hoje, ele integra a equipe brasileira de atletas transplantados. São seis pessoas (quatro atletas transplantados, um médico e um preparador físico) que vão representar o País no Canadá em julho próximo.

“Estamos em busca de patrocínio. Cada jogador precisará de US$ 3 mil para competir, o que inclui passagens aéreas, alojamento, refeições, medicamentos usados durante a competição e um seguro obrigatório, que é muito caro por termos condições de saúde especiais”, salienta.

Graças ao esporte, Riehl conquistou condicionamento físico, seus exames apontam resultados cada vez melhores e o médico já pôde reduzir a dose dos imunossupressores. E a vida continua, segundo ele, que acaba de comemorar o nascimento do terceiro filho. Hoje, Riehl se diz um exemplo de persistência e garante que os filhos estão seguindo seus passos por uma vida mais saudável.

• Serviço

Pessoas interessadas em patrocinar a viagem de Heraldo Riehl ao Canadá podem entrar em contato pelo telefone (14) 8115-8504.

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Jogos mundiais

A Federação Mundial de Jogos para Transplantados (World Transplant Games Federation - WTGF) foi criada em 1978, pelo cirurgião Maurice Slapak. As primeiras olimpíadas contaram com a participação de 99 competidores vindos da França, Alemanhã, Grécia e Estados Unidos.

Desde então, os jogos vêm ganhando mais adeptos. Hoje são 68 países-membros e a competição é realizada a cada dois anos. Os jogos reúnem atletas com idade entre 4 e 80 anos. São mais de 50 modalidades, incluindo atletismo, natação, esportes de raquete (tênis, tênis de mesa), golfe, vôlei e ciclismo, com disputas para crianças, jovens, adultos e idosos, separados em categorias feminina e masculina.

“Nossa proposta é demonstrar publica e visivelmente os benefícios dos transplantes de órgãos bem sucedidos, trabalhando para aumentar a conscientização sobre transplantes e sobre a importância da doação de órgãos, bem como para promover a reabilitação integral e o bem-estar de nossos participantes”, informa o site da WTGF.