08 de julho de 2026
Ser

Treinador das estrelas

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 12 min

Embora ainda seja pouco valorizada no Brasil, a ginástica olímpica está cada vez mais conquistando seu espaço no cenário esportivo nacional. Boa parte desse avanço pode ser creditado ao excelente trabalho realizado pelos técnicos, treinadores e atletas da Seleção Brasileira de Ginástica Olímpica, que superam as dificuldades em busca de resultados melhores a cada campeonato.

O bauruense Roger Medina é um desses profissionais que correm atrás da perfeição no esporte, que alia força, equilíbrio e dedicação. Há mais de 20 anos atuando na área, ele integrou a equipe masculina da Seleção Brasileira durante seis anos, na década de 90. Em 1999, passou a treinar um grupo de ginastas, entre elas Laís Souza - grande promessa para as Olimpíadas de Pequim, na China, em 2008.

Desde o ano passado, Medina trabalha como um dos cinco treinadores da equipe permanente da Seleção Brasileira Feminina de Ginástica Olímpica, composta por 17 atletas e com sede no Centro de Excelência de Ginástica Olímpica, na Universidade do Esporte, em Curitiba. Do seu grupo fazem parte as ginastas Daiane dos Santos, Ana Paula Rodrigues, Laís Souza e, até poucos dias, Daniele Hypolito, que se desligou da seleção.

No último final de semana, Medina atuou como assistente técnico da equipe comandada por Oleg Ostapenko na etapa de São Paulo da Copa do Mundo. O campeonato - no qual cinco ginastas brasileiros se consagraram entre os dez melhores no ranking mundial - garantiu medalha de ouro no solo a Daiane. Em sua apresentação, a ginasta emocionou o público com a ótima performance, mesmo com a falha no sistema de som do ginásio Ibirapuera, que parou de tocar o “Brasileirinho”.

Após a copa, Medina aproveitou para matar as saudades de sua família, que reside em Bauru. Durante uma folga na agenda, ele atendeu a equipe de reportagem do Jornal da Cidade. Sua trajetória como ginasta, dificuldades, sonhos e a experiência de trabalhar com a Seleção Brasileira, entre outros assuntos, podem ser conferidos na entrevista a seguir.

Jornal da Cidade - Quando você iniciou sua carreira?

Roger Medina - Fui ginasta e comecei em Bauru. Meu início foi em 1984, com 8 anos, no Centro Social Urbano da Bela Vista. Minha primeira treinadora foi minha tia Cleusa Medina. Eu treinei em Bauru até 12 anos, só que chegou uma hora em que, pela falta de estrutura da cidade, precisei procurar outros lugares. Fiz um teste em São Paulo, no clube Pinheiros. Eu passei e eles me convidaram para morar e treinar em São Paulo. Fui para a capital com 12 anos.

JC - Como foi esse período de adaptação?

Medina - Participei do Projeto Futuro, era um lugar onde moravam atletas do Interior de São Paulo e eles davam estrutura e alimentação. Era bem ruim se comparado ao que temos hoje. Nessa época eu trabalhei com o Washington Antunes, que tem uma academia de ginástica em Bauru. Eu fiquei em São Paulo até os 16 anos, quando entrei para Seleção Brasileira e fui morar em Ribeirão Preto, já que a equipe era patrocinada pelo COC.

JC - Você estudou nessa época?

Medina - Eles pagaram faculdade e eu treinei até 1999. Me formei em educação física na Unaerp, em Ribeirão Preto.

JC - A exemplo de outros ginastas, sua carreira teve início precoce. Quando você descobriu que tinha vocação para ginástica olímpica?

Medina - De início fazia judô, só que eu não me dava muito bem, só apanhava. Minha tia trabalhava na área e um dia ela me levou para fazer uma aula. Já no primeiro dia eu gostei e depois de um mês ela me levou para um campeonato, onde eu ganhei todas as medalhas de ouro. Foi aí que as pessoas que trabalhavam com esporte começaram a perceber esse talento que eu tinha para a ginástica olímpica. Eu era muito pequeno e ainda não tinha essa consciência. O pontapé inicial foi da minha tia que, na verdade, me descobriu e me colocou nesse caminho.

JC - Você integrou a Seleção Brasileira Masculina de Ginástica Olímpica por seis anos. Como foi essa experiência?

Medina - Comparado a hoje, a estrutura era muito ruim. Acho que se houvesse a estrutura que existe hoje eu não teria parado, continuaria treinando. Hoje nós temos atletas de 31 anos da equipe masculina indo para as Olimpíadas. Mas é muito difícil, o treinamento é rígido, com seis horas diárias. É preciso manter peso e nos privamos de muitas coisas. Mas todo esporte de alto nível depende disso, não tem jeito.

JC - Por que você decidiu abandonar a carreira de ginasta?

Medina - Só parei de treinar porque começei a dar treino, no COC mesmo. Eu trabalhava em um período e no outro eu treinava. Aí eu passei a ter muitos resultados com as meninas com quem eu estava trabalhando. Havia situações em que eu precisava escolher entre competir ou acompanhá-las como treinador. Eu passei a me interessar mais pelos treinos.

JC - O que pesou mais nessa decisão?

Medina - Como ginasta e competindo, eu atingi quase todos os meus objetivos. Acho que o único que não consegui foram as Olimpíadas, mas conquistei campeonatos Pan-Americano, Sul-Americano e Mundial. Na época tinha 22 anos e não iria ficar até os 26 ou 27 anos treinando para a próxima Olimpíada. No campeonato mundial é preciso estar entre os 36 melhores do mundo ou a equipe toda ficar com o oitavo lugar. Na época a equipe do Brasil era muito fraca e nós tínhamos que tentar individualmente, o que para a estrutura do País era muito difícil. Eu, por exemplo, fiquei em 42.º na categoria individual.

JC - Quais foram os principais momentos de sua carreira como treinador?

Medina - Na minha primeira equipe do COC, como treinador, fazia parte a Laís Souza. Ela começou comigo em Ribeirão Preto com 8 anos de idade. Junto com ela estavam a Thaís Silva, Daiana Bori e Marcela Yamazita. Todas elas começaram comigo no COC. Em 2000, tive que sair de Ribeirão Preto para trabalhar em São Caetano do Sul e essas quatro meninas me acompanharam. Em 2001, eu consegui colocar todas elas na Seleção Brasileira. Elas foram morar em Curitiba e eu recebi uma proposta para trabalhar no Flamengo em 2002, quando comecei a trabalhar com a Daniele Hypólito. Fiquei até 2003, quando ela também foi convocada para a seleção. Depois fiquei seis meses em São Carlos, num período de transição. Agora estou em Curitiba e provavelmente fique lá até 2012 treinando a seleção permanente.

JC - Em sua época como ginasta você falou sobre as dificuldades em relação à estrutura da seleção. Como você avalia este cenário atualmente?

Medina - Há quatro anos, no campeonato Pan-Americano, o Brasil perdia da Argentina e do Chile. No cenário mundial nós estávamos no 22.º ou 23.º por equipe. A seleção permanente começou em 2001. De lá até 2003, nós conseguimos nos classificar em nono lugar por equipe e essa classificação foi a primeira da história.

JC - Esse panorama positivo também atinge a equipe masculina?

Medina - O masculino está começando agora, com Moziah Rodrigues e Diego Hypólito. Nós conseguimos melhora quando conquistamos resultados internacionais. Aí a mídia e o público começam a se interessar. Por exemplo, a Daiane no ginásio do Ibirapuera, levantou a torcida, parecia jogo de futebol. A música parou, a galera ajudou com as palmas.

JC - Qual foi sua sensação ao ver Daiane dos Santos ganhando medalha de ouro no solo, após a falha no sistema de som do ginásio durante sua apresentação?

Medina - Eu estava junto com ela dentro da arena. Foi muito emocionante. Eu olhava para os lados e via pessoas chorando, crianças de 8 e 9 anos chorando e querendo autógrafos. Era como uma celebridade e isso para a ginástica olímpica é uma vitória. Antigamente, quando se falava em ginástica olímpica, muitos nem sabiam o que era. Hoje em dia... Ano passado a ginástica olímpica foi o esporte que mais deu retorno de mídia para o Brasil, mais do que o futebol. Mesmo o futebol aparecendo mais e tendo mais recursos, a ginástica olímpica, aliás, teve um retorno maior que todos os esportes. Isso em função dessas meninas, que estão conquistando bons resultados.

JC - Como foi o desligamento da Daniele Hypólito da seleção?

Medina - Dentro da seleção existem uma série de regras e a Daniele fugiu um pouco disso. Quinze dias antes do campeonato ela estava acima do peso. Esse campeonato não é por equipe e nós temos que escolher duas meninas para competir em cada aparelho, teoricamente são as duas melhores nos treinamentos. Em função do peso mais alto e de ela não estar treinando muito bem, o desempenho não estava muito bom, em todas as vezes que nós resolvemos os aparelhos, ela não conseguiu apresentar séries. Então nós resolvemos que ela iria fazer só traves e ela se sentiu ofendida de fazer um aparelho só, sendo que a Daiane e a Laís iriam fazer três. Ela achou que seria humilhação e que deveria sair da seleção. Foi um momento de estrelismo e acho que a única pessoa a perder vai ser ela. Ela já tem 21 anos e seu objetivo maior talvez seria o Mundial da Austrália em novembro e tentar chegar ao Pan de 2007, que seria muito difícil nessa idade.

JC - Em sua opinião, quais atletas são apostas da seleção para as Olimpíadas de Pequim, na China, em 2008?

Medina - A Laís Souza, hoje com 16 anos, é a maior promessa brasileira para o campeonato mundial de novembro e possivelmente para as Olimpíadas de Pequim. Nós estamos buscando um feito inédito de tentar fazer com que ela seja campeã mundial na categoria individual geral, que é a soma dos quatro aparelhos.

JC - A exemplo do seu caso, sabemos que muitas ginastas, com 8 ou 10 anos, também precisam passar pela experiência de morar fora. Como você analisa essa realidade?

Medina - Não é fácil, mas nós que estamos dentro do esporte e sabemos que essa rotina tem que ser assim, para nós é mais simples de ser entendido. O problema maior são os pais das crianças, uma menina de 10 anos é uma criança. Só que a ginástica olímpica é um esporte precoce, não tem jeito. O futebol pode ser iniciado com 18 ou 19 anos. A ginástica, principalmente para as meninas, é mais precoce. Uma atleta com 26 ou 27 anos está parando a carreira e tem que começar muito cedo. O início, no geral, é com 6 ou 7 anos. Mas não é uma regra, a Daiane dos Santos começou com 11 anos, é uma exceção. Não tem jeito, nós precisamos trabalhar dessa forma. Essa é a diferença dos países que estão na frente, como China, Estados Unidos e Ucrânia. Na China, as crianças com 6 ou 7 anos fazem os testes para ginástica olímpica. Se o país percebe que elas têm aptidão para o esporte, dão estrutura financeira para a família e a criança vai morar no centro de treinamento para se habituar a todo esse sistema. Para elas, que são criadas dessa forma, é natural.

JC - E para você, como foi sair de casa ainda na infância?

Medina - Na época que surgiu essa oportunidade, antes de comentar para minha mãe, eu já havia marcado teste em São Paulo, com 12 anos. Minha avó foi a intermediária. Eu não sofri nada, cheguei em casa, arrumei minhas malas, minha mãe perguntou se era isso mesmo que eu queria, afirmei que sim. Houveram momentos ruins, que me senti sozinho. Mas, se a pessoa tem esse objetivo traçado, ela supera tudo.

JC - A maioria das ginastas começa a atuar na área muito cedo. Como é a relação dos treinadores com elas, vocês acabam assumindo papéis de pais ou irmãos mais velhos em certas ocasiões?

Medina - Essa é uma questão muito difícil. Nós como treinadores precisamos ser extremamente rigorosos. Até ficamos com pena em determinadas situações, mas não podemos acolher tanto senão elas acabam confundindo as coisas. Aí quando precisamos dar uma bronca, elas acabam não levando a sério. Hoje em dia há pessoas para acolher as meninas. Atualmente são 17 ginastas morando juntas. Existem funcionários que tomam conta da roupa, da alimentação, há médico, dentista, fisoterapeuta e psicólogo. É tudo extremamente profissional.

JC - A ginástica olímpica é um esporte precoce. Por conta disso você acha que também amadureceu mais rápido?

Medina - Sim, claro. Além de ter que ser responsável, ter horários e cumprir as coisas, a ginástica olímpica exige muita concentração e determinação. Isso uma criança de 8 anos não tem. Na ginástica, ela tem que treinar quatro horas concentrada, sem brincar e conversar. Então isso faz com que o amadurecimento seja mais rápido. A vida de um ginasta é muito regrada: acordar, tomar café da manhã, treinar, almoçar, ir para a escola, treinar de novo e dormir.

JC - E em relação ao tempo para a família e lazer?

Medina - É bem rigoroso. Atualmente, eu treino de segunda a sexta-feira em dois períodos, e no sábado mais um período. E aí tenho o sábado à tarde e o domingo para descansar. Mas fica muito difícil porque moro muito longe e acaba não dando tempo para vir para casa. Agora (segunda-feira da semana passada) aproveitei uma folga. Eu estava em São Paulo, mas na quarta-feira já tenho que estar trabalhando em Curitiba. Aí sobrou uma folga e eu aproveitei para ficar com a minha família, mas logo tenho que ir embora. Além disso nós temos muitos campeonatos fora, viajamos e acaba não sobrando tempo mesmo. Mas é uma opção de vida, assim como todo profissional tem sua dedicação, nós temos a nossa.

JC - Qual é seu maior sonho?

Medina - Acompanhar a delegação durante e Olimpíada de 2008, em Pequim, como treinador. Esse é meu objetivo maior hoje.