08 de julho de 2026
Articulistas

Negro


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A escravidão dos negros foi justificada pelos teólogos em razão da “maldição de Cam”. O jovem viu a nudez de seu pai adormecido, Noé, embriagado com o suco fermentado da primeira vinha que plantara. Ao despertar da embriaguez, Noé amaldiçoou o filho caçula pela sua insolência: “Maldito! Que Cam seja para seus irmãos, o último dos escravos”. A Bíblia pára aí. Ao texto sagrado acrescentaram-se vários outros, um dos quais sobre Cuch, outro filho de Cam. Este último teria, de novo, desobedecido a Noé, que proibira seus descendentes de ter relações sexuais na Arca. Mas Cam concebeu um filho durante o dilúvio: Cuch. Deus o amaldiçoou e o fez nascer negro. A partir daí, a maldição de Cam, associando o negror da pele ao negror da alma, manteve-se como argumento fundamental dos escravistas. Em si mesma, a Bíblia não é portadora de racismo antinegro. Pelo contrário. O Cântico dos cânticos celebra a beleza de Sulamita, a negra amada pelo rei Salomão. Um último sinal da indiferença quanto a cor reside no relato da visita da rainha (etíope) de Sabá ao rei Salomão: em nenhum trecho das crônicas (II,9) se alude ao tom da sua pele.

O postulado da superioridade branca não existia na Antiguidade. Os gregos eram mediterrâneos acostumados às peles trigueiras, e seus escravos eram, em sua maioria, brancos. Consideravam os africanos “os povos mais sãos do mundo”. Cleópatra, a rainha do Egito, segundo historiadores, era escurinha e nem por isso deixou de ser amada por César e Antonio. Esse problema de considerar o negro como raça inferior é relativamente recente. No início do século 19, os colonizadores franceses começaram levar para a Europa, numa “missão civilizadora”, indígenas africanos que eram exibidos em zoológicos humanos. Gente “não como nós”. Era o slogan para chamar multidões com cobrança de ingressos. Um desses “exemplares” foi a famosa “Vênus hotentote”, sul-africana de nádegas colossais. Era desnudada numa gaiola no Piccadilly Circus, em Londres, antes de ser revendida a um expositor de feira de Paris.

A partir de 1920, os geneticistas começaram a rejeitar o conceito de raça, trocando-o por “grupo étnico”. Antropólogos respeitados como Claude Lévi-Strauss recomendam substituir o estudo das raças pelo das culturas. Mas o termo “raça”, embora tratado com reservas, não é recusado em nenhum lugar. Por isso temos aí um jogador argentino que foi trancafiado no xadrez sob acusação de “racismo”. Parece até que vivemos numa democracia multirracial e a Lei Afonso Arinos, aquela que pune injúrias ditas raciais, é aplicada nos seus rigores em todos os nacionais que ousam transgredi-la. Se o Brasil fosse um país sem preconceito, o jogador do São Paulo, a vítima, não teria o apelido de “Grafite”.

O arrependimento do Papa João Paulo II em 1991 “pelos pecados cometidos pela Europa cristã contra a África”, por ocasião de sua visita à ilha de Gorée, no Senegal, deve ter inspirado Lula ao mesmo discurso, no mesmo local. Daquele entreposto embarcaram milhões de escravos para o Brasil. Bill Clinton também já se desculpara pelo papel da América no tráfico, durante viagem à África. Será que esses estadistas não deveriam também pedir perdão aos negros americanos e brasileiros? Embora os escravos, ao preço de seu suor, tenham contribuído com seu trabalho não-remunerado para a riqueza do Brasil e para a construção de muitas fortunas, quando se decide a uma modestíssima compensação em forma de cotas nas universidades a fim de que os negros possam ser alavancados socialmente, um clamor branco se levanta. Classifica as cotas como um acinte à competitividade do livre mercado. Então, o Brasil seria uma meritocracia e não uma democracia pluri-étnica. A escravidão deixou marcas e condenou a população negra à pobreza, ao desemprego e à carência educacional. É isso que nós precisamos reparar. Desculpas só não bastam. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)