Peço licença aos leitores do JC e ao saudoso Nadyr Serra para ocupar esse espaço onde ele tradicionalmente escrevia às terças, quintas e sábados e falar do companheiro de trabalho que foi um exemplo para a Redação. Perdemos, no último sábado, um homem que sempre tinha uma palavra de otimismo para contemplar a quem quer que fosse. Seja cumprimentando a todos com um bom dia já no final da tarde em meio ao fechamento “hard” do jornal ou lembrando que lá fora um céu azul premiava os olhos de quem disponibilizasse um minuto do seu atribulado dia para simplesmente observar o tempo.
Nadyr era assim. Do alto da sua experiência de 84 anos, 31 dedicados ao JC, fazia questão de nos lembrar da beleza das pequenas coisas, do quanto eram importantes simples gestos de delicadeza. E transportava para seus artigos essas impressões únicas que identificava no cotidiano. Era um homem religioso. Abraçava causas sociais e não se furtava a suas responsabilidades como cidadão. Era conhecido pelo seu extremo bom humor e simpatia. Era querido!
Quando seus artigos começaram a rarear, veio a preocupação. Primeiro uma indisposição, depois a pneumonia... Em menos de duas semanas, perdemos um companheiro. No sábado à noite, antes de colocar a notícia da sua morte no jornal, relembramos o carisma do seu Nadyr, como era chamado por todos. Chegava sempre pela manhã no jornal, ao volante do seu Chevette. A imagem fragilizada de seus 84 anos se contrapunha à independência que fazia questão de manter. Vinha a passos lentos, mas caminhava sozinho. Fazia questão de cumprimentar a todos, um por um. Escrevia seus artigos na máquina de escrever, companheira de anos de Redação. Nunca admitiu substituí-la pelo computador. Talvez o som inconfundível de suas teclas servisse de inspiração para os textos... Talvez não pudesse abrir mão da primeira testemunha de suas opiniões...
Gente apaixonada por jornal costuma ser assim. Expele palavras nas pontas dos dedos. Tem tinta correndo nas veias. Espera um exemplar do jornal sair na “boca” da impressora porque quer ler seu texto antes de ir para cama. Sonha com a vírgula opcional daquela frase que tanta discussão gerou na Redação quando foi levantada a dúvida. Como nos faz sofrer essa língua portuguesa! Mas quanto prazer ela nos dá! O Nadyr tinha essa paixão pelo jornalismo...
Dói ver a mesa com a única máquina de escrever que restou no JC vazia. Dói cogitar que o Nadyr pode ter levado com ele uma parte do romantismo daquela geração de jornalistas que exercia a profissão primeiro por vocação. Mas alivia o coração lembrar que nós tivemos o privilégio de conviver com uma pessoa tão especial. Que poderemos passar para as novas gerações que, além de usar toda a tecnologia de que dispomos a serviço do bom jornalismo, precisamos achar um tempo para cuidar das nossas relações, para cultivar a nossa "humanidade".
“Amigos não consultem os relógios quando um dia me for de vossas vidas... Porque o tempo é uma invenção da morte: não o conhece a vida - a verdadeira - em que basta um momento de poesia para nos dar a eternidade inteira” - Mário Quintana. Somos gratos por tudo. Pelas palavras de carinho... Pelo espírito nobre que demonstrava em cada gesto. Nadyr é o tipo de gente que faz falta. Muita falta! “É a nossa opinião!”, como costumava se despedir em seus artigos nosso saudoso companheiro.
A autora, Márcia Duran, é editora especial do JC