Nas comemorações pelo “Dia do Índio” e no ano em que celebramos os 100 anos da chegada da nossa ferrovia mais famosa e importante, a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, a NOB, no dia 13 de novembro de 1905, vemos que a questão indígena ainda é obscura para a maioria dos brasileiros e que os índios kaingang, originais donos das terras, e outros índios merecem outro tratamento dos que se consideram civilizados.
Devemos lembrar que, para construir as estradas de ferro de Bauru, a vida e as terras de centenas de indígenas foram retiradas por serem considerados “selvagens” que atrapalhavam a marcha do progresso. Como se fossem bugres, os índios eram tidos como gente sem modos ou cultura que mereciam ser eliminados em nome da civilização. Os caçadores de índios, conhecidos bugreiros, que eliminavam friamente os “selvagens” da cidade, eram festejados na Capital federal, o Rio de Janeiro, como verdadeiros “agentes da civilidade”, além de receberem dinheiro pelo seu “serviço”.
O tempo passou e chega ao Brasil o jovem intelectual francês, Claude Lévis Strauss, em 1934, para fazer parte do corpo docente da recém-criada Universidade de São Paulo, responsável pela profissionalização da nossa intelectualidade.
Do contato que teve com o nosso País, Strauss elabora uma sofisticada teoria onde chega à conclusão que os povos tradicionais, ditos selvagens pelo etnocentrismo, fazem ciência, arte e cultura com requintes de sofisticação do branco europeu ou dos antigos gregos. A grande diferença entre a produção intelectual do “civilizado europeu” e o “selvagem brasileiro” seria que o europeu, pelos seus condicionamentos, parte do pensamento abstrato e do referencial escrito, enquanto o indígena brasileiro ou quaisquer “povos selvagens” partem do concreto da sua realidade e de uma cultura oral. Fazem arte, classificam os conteúdos da floresta e de seu próprio mundo, desenvolvem sofisticada medicina, botânica, pintam os seus corpos com rara beleza, mas mesmo assim são desprezados por ignorância ou ganância.
Já é hora do “civilizado violento” assumir a sua própria selvageria e ignorância e constatar que desqualifica o “pensamento selvagem” apenas por interesses econômicos. Afinal, um dos maiores intelectuais europeus de todos os tempos, vivo e com 96 anos de idade já provou, através da sua extensa obra, que selvagens, na maioria das vezes, são os “civilizados”.
O autor, Fábio Paride Pallotta, é especialista em educação e professor