09 de julho de 2026
Articulistas

O dia em que conheci Ratzinger


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No período em que fui correspondente internacional da revista Veja, baseado em Roma, entre os anos de 1987 e 1990, tentei sem sucesso um encontro com o então cardeal Joseph Ratzinger. Enviei a ele várias cartas, uma delas levada por d. Eugênio Salles, cardeal do Rio, o prelado brasileiro de maior prestígio na Cúria Romana. Ratzinger comandava a Congregação para a Doutrina da Fé, o antigo Santo Ofício, e lutava contra a corrente de esquerda que dominava fração expressiva da Igreja Católica no Brasil, inspirada na Teologia da Libertação, cujo líder intelectual era o frei Leonardo Boff, de Petrópolis. Minhas cartas jamais tiveram resposta. Era como se não tivessem chegado ao destino.

Voltei ao Brasil, mudei de área no jornalismo. Dediquei-me à gastronomia e passei a dirigir a revista Gula. No final de 1996, fui à Áustria a trabalho. Ao passar pelo Monastério de Maulbronn em Baden, perto de Viena, parei para uma visita. Já ouvira falar na suntuosidade arquitetônica do lugar. Construído na Idade Média, o monastério se encontra exemplarmente preservado e foi considerado pela Unesco patrimônio da humanidade. Ao transpor sua muralha, deparei-me com o outrora arredio cardeal Ratzinger, acompanhado de meia dúzia de freiras. Vestia o clergyman, contemplava e explicava para as religiosas aquela maravilha da arte. Não tive dúvidas: fui ao seu encontro e puxei conversa. Antes, porém, pedi ao fotógrafo Gladstone Campos, que me acompanhava, que documentasse o encontro.

Evidentemente, a conversa foi respeitosa. Falamos em italiano - o dele é impecável, ressalvado o acento alemão. Mas reclamei com educação da falta de resposta às minhas cartas. O cardeal explicou que, por razões políticas, não lhe convinha receber a imprensa. Temia que alguma palavra pudesse ser mal interpretada e prejudicasse o trabalho da Congregação para a Doutrina da Fé. Referia-se à desmontagem da Teologia da Libertação, que operava com sucesso. Surpreendeu-me por se referir à Veja com naturalidade e revelar conhecer alguns jornais brasileiros, que lhe chegavam à mesa na forma de recortes. A seguir, perguntou onde eu estava trabalhando, mas desconversei. Fiquei constrangido. Afinal, São Tomás de Aquino classificou a gula entre os pecados capitais. O fotógrafo Gladstone, que ouvia o diálogo, começou a rir.

Ratzinger falava com tranqüilidade. A voz era baixa e mansa. Mostrava-se simpático e agradável. Em nenhum momento me fez sentir diante do prelado que todos afirmavam ser um homem taciturno e implacável, inclusive eu, antes de conhecê-lo pessoalmente. Então, perguntou-me se eu era católico. Respondi que sim. Ratzinger olhou para um dos lados do monastério e, se ainda consigo lembrar, falou assim: “Então o senhor vai entender melhor este monumento que influenciou a arquitetura gótica mundial e inspirou tantas manifestações de espiritualidade”.

Ao nos despedirmos, afirmou que tinha grande apreço pelo Brasil, o país natal de seus amigos d. Eugênio e d. Lucas Moreira Neves, o falecido cardeal da Bahia. Apertou minha mão, abanou para o fotógrafo Gladstone e voltou a conversar animadamente com as freiras. Quando recebi a notícia de sua eleição, lembrei-me do encontro com o novo papa. Acredito que Ratzinger, agora Bento XVI, não mudará a Igreja. Preservará as linhas básicas do pontificado anterior, do qual foi coadjuvante. Dizia-se que ele e João Paulo II eram “colegas intelectuais”, por terem os mesmos pontos de vista. Sendo homem inteligente e culto, além de grande teólogo, deverá ser um bom papa.

O autor, J. A. Dias Lopes, é colunista da Agência Estado