“Homem que é homem não usa camiseta sem manga, a não ser para jogar basquete. Homem que é homem não gosta de canapés, de cebolinhas em conserva ou de qualquer outra coisa que leve menos de 30 segundos para mastigar e engolir. Existe um homem que é homem dentro de cada brasileiro, sepultado sob camadas de civilização, de falsa sofisticação, de propaganda feminina e de acomodação.”.
O texto, extraído do livro “As Mentiras que Os Homens Contam”, de Luis Fernando Verissimo, retrata, com humor, um dos dilemas que sobrevivem aos tempos modernos: a dificuldade masculina em lidar com os sentimentos dentro de uma sociedade onde o machismo ainda persiste.
Embora a maior abertura feminina nas relações econômicas e sociais esteja contribuindo para uma flexibilização do campo afetivo masculino, grande parte dos homens ainda se sente obrigado a seguir padrões rígidos de comportamento. Por exemplo, a de que “os representantes da espécie masculina” não devem se render à demonstrações de tristeza, medo, carinho e amor, explica a psicóloga Carmen Maria Bueno Neme, especialista em psicologia clínica.
“Está havendo uma modificação nos padrões masculinos e femininos que fica evidente entre os adolescentes: hoje os meninos têm mais abertura para usar brinco e roupas coloridas. Mas ainda persiste entre os meninos a cobrança em ser homem. E isso significa ser forte, agüentar a dor. Ele pode expressar a raiva, mas amor, medo e tristeza não”, pontua Neme.
A sete chaves
Comunicativo e extrovertido, o agente cultural Leandro Alves Ribeiro, 24 anos, engana quem pensa que a aparência expansiva reflete sua personalidade. Pelo contrário, ele revela ser muito reservado em relação a seus sentimentos.
“Eu sou de guardar minhas emoções. Para todos os efeitos, estou bem. Mas para saber o que está acontecendo realmente comigo é preciso ser um amigo muito próximo”, conta ele. Sua mãe, Zilda Ribeiro, confirma. “Nosso relacionamento é bem aberto, mas para que o Leandro fale dos sentimentos é preciso esperar o momento certo”, diz.
Segundo Ribeiro, homens e mulheres expressam emoções, só que de forma diferente. “A mulher chora em várias ocasiões, ela não tem vergonha de demonstrar o sentimento. O homem não, ele procura demonstrar emoção somente em algumas situações, por exemplo, quando um esportista é campeão”, observa. “Quando eu terminei um relacionamento ela chorou na minha frente e depois eu chorei escondido, no ombro dos amigos”, detalha.
Na opinião de Ribeiro, essa característica pode ser reflexo da fragilidade masculina em relação à mulher. “O homem é mais emotivo do que a mulher porque é mais frágil do que ela. A mulher encara o mundo segundo uma dialética de emoção e raciocínio muito maior do que o do homem. O homem é razão ou emoção. A mulher consegue lidar com os dois lados de uma forma mais sensata e equilibrada”, aponta.
____________________
Conseqüências negativas
A forma de lidar com as emoções reforça as diferenças psicológicas existentes entre homens e mulheres, fator considerado positivo pela maioria dos estudiosos. “O desempenho dos papéis sexuais, sociais e familiares é diferenciado entre homens e mulheres. A personalidade e o psiquismo são diferentes e é claro que o homem não precisa expressar como a mulher”, diz a psicóloga Carmen Neme.
Por outro lado, a repressão dos sentimentos pode trazer sofrimento ou problemas de relacionamento afetivo, explica Neme. “Entre homens existe uma espécie de pacto, ele não vai ser cobrado ou não vão achá-lo estranho por esse comportamento. Mas num relacionamento afetivo entre homem ou mulher, ou com os filhos, isso vai provavelmente trazer dificuldades”, salienta.
De acordo com a psicóloga, quando, além de reprimir, o homem evita ou se nega a perceber as eventuais dificuldades em lidar com suas emoções, o sofrimento interno aumenta e pode provocar doenças psicossomáticas. “Para Freud, emoção é energia e movimento. Toda vez que há uma repressão, essa energia interna vai ter que ser canalizada de outra maneira. Isso pode resultar em reflexos negativos na saúde física e psíquica”, esclarece.