Pesquisa do Departamento de Investigações sobre Narcóticos (Denarc) divulgada no ano passado mostrou que 23% dos usuários de drogas entrevistados na cidade de São Paulo têm menos de 15 anos de idade. E esse índice vem aumentando nos últimos anos. Isso mostra que não é exagero a preocupação dos pais em investigar o comportamento dos filhos.
A desconfiança, o medo e a dificuldade em conversar sempre aparecem nas explicações dos familiares que já recorreram ao teste do cabelo para descobrir se alguém está usando drogas. E quando são questionados, os filhos, submetidos ao teste com ou sem conhecimento prévio, reagem com negações, agressões e afastamento, pelo menos num primeiro impacto.
“Ele negou até o último momento, quando mostrei o resultado positivo para cocaína”, conta a gerente administrativa de vendas Elaine (nome fictício), 39 anos, mãe de um rapaz de 19 anos. Desconfiada e preocupada com o filho, ela conta que, antes de apelar para o teste, tentou uma aproximação. Sem retorno, abriu o jogo. “Cheguei para ele e disse que não acreditava no que ele estava dizendo, e que iria testá-lo”, lembra.
Depois do resultado, de uma reação agressiva e de retraimento, veio a confissão. E a dúvida da mãe sobre como agir a partir de então. “Ele disse que não era dependente, que usava de vez em quando. E eu fui procurar ajuda para saber como proceder. Estamos agora trabalhando nisso”, afirma. Mesmo assim, ela já avisou que vai repetir o teste em 90 dias e quer um resultado negativo.
Mas em um universo dominado por sutilezas e dinâmicas familiares completamente diferentes, as reações são imprevisíveis. “Ele ficou perturbado, nervoso. Foi muito difícil a convivência depois. A gente tentava conversar, ele não aceitava. Sofreu bastante, até que procuramos uma psicóloga e ela recomendou que a gente desse um tempo para ele”, conta a comerciante Antonia (nome fictício), 41 anos, que aplicou o teste no filho de 15 anos.
Mesmo com toda a reação negativa, ela acredita que fez o melhor. “Tive de fazer, e vou repetir a cada três meses, porque droga dentro de casa não dá para a gente permitir, né?”, acrescenta. Abordados na rua pela reportagens, pais de diferentes idades, com filhos de diferentes idades, mostram que fariam o teste se desconfiassem do comportamento de seus filhos. Eles alegam que, muitas vezes, essa é a única forma de descobrir e ajudar.
E ao contrário do que muitos podem imaginar, os jovens também concordam com a realização do exame, apesar de demonstrarem certo incômodo quando pensam em serem testados sem prévio consentimento.
Confiança
Na análise da psicoterapeuta Mônica Gorgulho, diretora da Associação Internacional de Redução de Danos e coordenadora da Organização Não-Governamental (ONG) Dínamo, que trabalha com informações sobre drogas, ação pode trazer conseqüências negativas para o futuro da relação familiar e o amadurecimento dos adolescentes.
“Não achamos que essa seja a melhor forma. Mesmo abrindo o jogo, o filho fica sem opção. É uma imposição. E a partir disso ele vai agir de duas maneiras. Ou tentar mascarar o uso ou mesmo parar de usar. Mas não vai parar por uma consciência própria, por uma decisão pessoal. Vai parar por obrigação. E aí há uma grande diferença, inclusive no processo de amadurecimento do jovem, dele reconhecer as situações de perigo e as conseqüências do que faz”, sugere.
Para ela, testar os filhos é optar pelo caminho mais fácil. E que muitas vezes não leva a uma modificação efetiva, porque a consciência do jovem não foi afetada pela experiência. “A pessoa testa, descobre e aí? A relação de confiança e de diálogo que deveria ter sido estabelecida foi destruída”, alerta.
É uma posição semelhante à defendida pelo psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, coordenador do Programa de Orientação e Assistência a Dependentes da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Segundo ele, é comum receber no consultório familiares querendo usar o teste nos filhos.
“Sempre respondo que sou contra. E explico que só o fato de começar por um teste já parte de um nível de desconfiança tão grande que acaba minando todo o processo de diálogo e confiança. Cria uma paranóia na família”, argumenta.
Outro tópico levantado pelos profissionais é que esse tipo de teste não deveria estar disponível para uso doméstico, fora do contexto médico. “Quando você pega um leigo, envolvido afetivamente, os prejuízos muitas vezes são maiores do que os benefícios”, observa o psiquiatra André Malbergier, coordenador do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas (Grea) da Universidade de São Paulo (USP).
Voluntária do grupo Amor Exigente, Mara Silva Menezes defende que não existe uma resposta única para o problema. “Vejo aqui no grupo que fazer o teste foi bom para algumas famílias e que para outras foi um desastre completo. Mas o que fica claro, em todos os casos, é que se o jovem está usando drogas, a família toda precisa ser modificada. Não adianta terceirizar no filho os problemas que são toda a família”, acrescenta.