Talvez tenha sido em 62 ou 63. Eu devia ter uns 6 anos e estava jogando bola no parquinho infantil, ao lado da Igreja Santa Terezinha, em Bauru. Repentinamente, o sino da igreja começou a tocar e a professora juntou a garotada no meio da quadra e comunicou que o papa havia morrido. Era João XXIII. Eu era jovem demais para entender. Assumiu Paulo VI, que permaneceu até os anos 70. Quando morreu, a mídia já tinha um papel importante na divulgação do processo de escolha de seu sucessor, João Paulo I. Lembro-me da capa do Jornal da Tarde, com a foto de João Paulo I sob a manchete “O papa que ri”. João Paulo I era mesmo sorridente, uma simpatia. Ficou papa por um mês e morreu.
Veio João Paulo II, apresentado como um papa diferente, atlético, que esquiava, conduzindo a igreja por alguns dos períodos mais conturbados da história. Certos dogmas foram mais fortes que ele, que perdeu muito de sua energia após o atentado e talvez não tenha conseguido reformar a igreja tão profundamente como desejava. Sua morte encerra definitivamente o século 20.
A mídia superou-se nos funerais e na escolha do novo papa. Nunca houve uma chaminé como a última na capela Sistina. Ver milhares de pessoas horas e horas em fila e derramando lágrimas apenas demonstra a força da fé. Mas tenho umas dúvidas. Quantos estavam no Vaticano menos pelo papa e mais para poder um dia dizer: “Eu estava lá?” E aquelas cenas de final de Copa do Mundo, com as pessoas se abraçando e gritando após o anúncio do nome do novo papa? Os muçulmanos devem ter reagido àquelas imagens da mesma forma que nós reagimos quando vemos os milhões de fiéis em Meca ou a turba em lágrimas e convulsões carregando a foto do Aiatolá morto. Será que não é tudo a mesma coisa? Claro que sim! Em graus diferentes de fanatismo talvez.
Mas não é essa reflexão que quero sugerir aqui. O grande desafio do novo papa será conciliar moral e politicamente a sua exposição na mídia. Ele já é um produto “vendido” pela mídia da mesma forma que um Big Mac. Da mesma forma que os terroristas islâmicos. Ou a tsunami. Mas a biografia e as feições de Bento XVI não parecem ser as de um profissional acostumado com a mídia, transigente e carismático. Pelo contrário.
Temo que num mundo que precisa urgentemente reaprender a lidar com o intangível, com a imaginação, com a sensibilidade, um papa focado no comando e controle e apegado a velhos dogmas seja um retrocesso. Mas isso é apenas a primeira impressão. Vamos dar tempo ao homem. Talvez a esperança vença o medo. Êpa... Onde é que eu já ouvi isso mesmo?
O autor, Luciano Pires, é jornalista, escritor, conferencista e cartunista