Depois de tirar a vida de mais uma pessoa – a terceira -, o poço situado no bosque do Parque União será finalmente cercado pela administração municipal, atendendo o pedido de socorro há tempos clamado pela associação de moradores e populares do bairro.
Incentivado pela fatalidade registrada na tarde do domingo, o titular da Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma), Carlos Barbieri, solicitou vistoria no local para apurar quais providências imediatas podem ser adotadas.
“O laudo ainda não voltou. Vamos cercar (a erosão) e colocar placa (indicando perigo). É difícil falar em tempo porque ainda não sei o que será necessário (em investimento). Se for um valor alto, teremos de iniciar processo de licitação”, explica Barbieri.
Prometido como ponto de lazer há uma década, o bosque tornou-se um pesadelo para os moradores do bairro não só pela tragédia das mortes, todas por afogamento. Segundo enumeram populares ouvidos pelo JC, o local também é utilizado para consumo de entorpecente, para a prostituição, como esconderijo de objeto furtado e depósito de material em decomposição.
O bosque já foi alvo de limpeza por parte da administração, mas atualmente está coberto por mato e lixo, ambiente favorável para a procriação do mosquito palha (transmissor da leishmaniose) e de caramujos. “Isso aqui está tomado (pelos moluscos). Dá para encher vários sacos”, afirma o presidente da Associação de Moradores do Parque União e Bela Vista, Antônio Carlos Yamashita.
Na opinião dele, quem vislumbra o poço do bosque como alternativa de refresco para dias quentes, também corre o risco de contrair doenças de pele. Adriano da Silva Machado, 16 anos, sabe bem disso. Ele parou de mergulhar no local após constatar manchas no braço. “Quase todo mundo entrava. Eu também. Depois fiquei com medo”, diz. Apesar de contrariar recomendações dos pais, desde os 14 anos ele adotou o local como área improvisada de lazer.
Perigo
Assim como Adriano, outros adolescentes se divertem nas águas do poço, acessível a qualquer interessado. “Já vi grupos de meninas aqui. Quinze dias antes de um homem de 32 anos morrer afogado em agosto do ano passado, solicitamos à Semma que jogasse pedregulhos (para diminuir a profundidade de aproximadamente quatro metros)”, comenta Yamashita.
O documento deve ter sido arquivado porque não chegou às mãos do atual titular da Semma, confirma Barbieri. Mas a frustração dos moradores não pára por aí. O projeto original do bosque, criado no início da década de 90, prevê trilhas dentro e fora da área verde e instalação de churrasqueiras, por exemplo.
“Começaram a fazer um portal na entrada, mas a chuva levou o que havia sido construído e a obra parou. Em 2003, o prefeito (Nilson Costa) esteve aqui e ficou acertado que a prefeitura daria material (para o alambrado e calçamento) e a associação, mão-de-obra (mutirão). Fizemos o projeto, entregamos na (na administração municipal) e não obtivemos mais resposta”, afirma o presidente da associação de moradores.
A Semma confirma a elaboração de um projeto por parte da Secretaria Municipal do Planejamento (Seplan), interessada em transformar o local em equipamento de lazer.
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Histórico
O poço que já vitimou três pessoas tem pelo menos 30 anos. Ele está situado no interior de uma erosão, aterrada parcialmente quando foi construída a avenida Jurandyr Bueno.
Na ocasião, as minas d’água da região foram canalizadas para o local, que já abrigava a nascente de um córrego denominado Boa Vista, conta o coordenador da Defesa Civil, Álvaro de Brito.
O aumento do fluxo de água resultou na formação de pequenas cachoeiras, além da ampliação na largura e profundidade do poço. Mesmo assim, no início da década de 90, a administração municipal anunciou a transformação da área num bosque, projeto ainda não concretizado.
Atualmente, a área de quase de 20 mil metros quadrados tem pequenos trechos cercados por alambrados, dispõe de uma quadra de esportes em situação precária e está tomada por lixo e mato.