09 de julho de 2026
Pesca & Lazer

História de pescador: O caiman da represa


| Tempo de leitura: 6 min

“Continuando com nossos contos que nem sempre são mirabolantes, mas puramente verdades acontecidas durante nossa trajetória de vida, e quando nós falamos de vida, temos de incluir os melhores momentos dela, que são as pescarias. É neste lazer que surgem histórias interessantes. Aliás, como dizia um velho amigo: 'Mais vale um mau dia de pescaria, do que um bom dia de serviço!' E ele dava risada quando proferia tal ditado.

Mas vamos à história do jacaré, ou melhor do 'caiman'. Lá estava ele, e pelos sinais deixados na areia, era enorme. Na pequena represa, de águas turvas, ali morava o jacaré.

Pescador não tem canseira, e nós, após árdua luta para carregarmos dois caminhões de madeira, ainda tínhamos destreza para caçar jacaré. Dirigimo-nos ao local, donde se ouvia falar do tal animal. A fazenda estava abandonada há anos; somente era visitada uma vez por semana pelo campeiro. Ele era nosso informante sobre o réptil que habitava a represa, apesar de ser uma pessoa não muito confiável, além de ser também pescador. Resolvemos dar-lhe um voto de confiança, apesar de tudo.

Nós, como bons pescadores e melhores curiosos da natureza, estávamos interessados mesmo em capturá-lo. Fomos para o local, avistando de imediato várias pegadas do tal jacaré, que a princípio não tinha nada de caiman, mas um bom tamanho. Estávamos apreensivos e curiosos para ver logo o dito jacaré.

Não bastou muito tempo, e logo um dos pescadores avistou o jacaré. Estava ali, logo na nossa frente, imóvel, próximo a um monte de taboas, mas segundo o meu amigo só dava para ver sua enorme cabeça. Permanecemos quietos para não espantá-lo. Seu Amador, um dos mais experientes pescadores da região, excelente companheiro e com um quesito pouco peculiar de pescador, não era mentiroso, foi quem avistou o animal. Ele mostrava o jacaré, via até mosquitinhos ao redor de sua enorme boca.

Nós, como pescadores, sabemos que para apanhar um animal deste, é imprescindível ter bons anzóis, além de uma isca especial que faça com que ele seja atraído pelo odor. Tininho, outro companheiro, não muito pescador, mas bom mentiroso, logo disse que teríamos que matar um pássaro e sapecá-lo para atrair o bicho.

A solução foi prontamente encontrada. Não muito longe dali, existia uma paineira muito antiga, de enorme tronco, que estava florida com suas flores violetas e na copa tinha um ninho de uma ave muito estranha, uns diziam ser socó, outros diziam ser quero-quero. Mas para seu Amador e Tininho isso era detalhe sem a menor importância, estava decidido que o filhote seria a isca ideal para atrair o jacaré, que aliás ainda se encontrava no mesmo local, intacto, parecia paralisado com tanta gente a admirá-lo.

Os dois algozes cortaram uma vara de bambu bem comprida para derrubar o filhote, e após intensa luta para derrubá-los, aproximadamente umas duas horas de intenso xingamentos, uma vez que os pobres pássaros se defendiam agarrando-se nos galhos com suas enormes unhas. Mas eles conseguiram derrubar os filhotes que estavam a ponto de voar.

E o caiman continuava lá... sob os olhares de mais dois companheiros, inclusive do próprio otário escritor que vos fala. Após a derrubada dos filhotes e a sua morte, fizeram uma fogueira próximo a represa para sapecá-los, botando os coitadinhos na ponta de uma vara, com pena e tudo, afinal era para o jacaré sentir o odoro e abrir mais seu apetite. O cheiro misturado de carne e pena abriu até nosso apetite, imagine o jacaré como estava.

O próximo passo era apanhar um grande anzol com uma linha bem grossa, tipo 'zero cem', como dizemos por aqui, para garantir a retirada do 'tal' fora d’água. O jacaré continuava lá, inerte e o seu Amador via até os lhos dele se mexerem, de vez em quando ele dava uma piscadela, para a cambada de bobos que o admirava.

Iscamos o anzol, colocando o filhote assado inteiro como engodo. Tudo pronto, ia começar nossa façanha... Arremessar o anzol em sua direção era nossa próxima missão. Uma, duas, dez, 50, 100 vezes... Já era tarde e sol começara a ir embora.

Nossa intenção era arremessar o mais próximo do jacaré, para ele sentir o odor da isca. Num desses arremessos, o anzol caiu próximo à boca do jacaré, mas para nossa decepção, ele nem ligou. Os mais espertos achavam que não era jacaré, outros até arriscavam dizer que ele estava enfastiado de tanta comida, havia muito peixe na represa.

Joaquim, um daqueles sarará, conhecedor de tudo e nada, era mecânico de avião, de moto-serra, bicicleta e mentiroso que ele só, apavorado já queria apanhar o bicho à unha, o que de imediato causou revolta entre os pescadores.

Diante de tanta ganância e tamanha burrice, um de nós que prefiro ocultar seu nome, teve a infeliz idéia de arrumar um pedaço de madeira para acertar no jacaré, uma vez que o anzol estava bem próximo dele e nada de pegar. Tacaram várias vezes a madeira no 'jacaré' e numa dessas tentativas a madeira caiu bem em cima do jacaré, que se deformou. Estaria ele morto? Nossa decepção foi enorme, para uns era motivo de gozação, para outros fomos feitos de bobos mesmo.

Depois de tantas gozações e xingamentos, constatamos que o jacaré que tinha enorme boca, olhos esbugalhados, não passava de um amontoado de taboas que acabara de afundar com o peso da madeira.

Seu Amador, um dos mais desapontados, ainda procurava os mosquitos que atentavam o jacaré, o Tininho, revoltado com o jacaré, xingava e lamentava ter matado os filhotes.

Depois de tanto sofrimento e desilusão, viemos embora, e como castigo, ficamos encalhados num areião danado e após muito esforço conseguimos desvencilhar do local e chegar em casa. Isso já era tarde da noite e fomos direto para a serraria descarregar os caminhões. Não tardou muito para chegar ao local o Joaquim, o Pipa e meu filho que tinham vindo embora antes, para ver a limpeza do jacaré. Seu Amador, aquele dos mosquitinhos, caprichoso, fez mais uma das suas trazendo o monte de taboa para mostrar aos três que ainda não tinham visto o jacaré.

Hoje, passado muitos anos, ainda nos lembramos e sentimos saudades daqueles tempos, do sofrimento que passamos, mas ao mesmo tempo nos auto-admiramos pela coragem e tamanho esforço, mesmo que em vão, indo atrás do jacaré, aliás da taboa ou capitu, como a chamam os biólogos da vida. Para nós, ficou mais uma vez a certeza de que histórias acontecem e as lendas são criadas, porque se não tivéssemos insistido em capturar o jacaré, até hoje estaríamos lamentando.

E o verdadeiro jacaré, não o caiman, aquele tão propagado pelo campeiro, está lá até hoje, este sim existe realmente, pelo menos seus rastros eu vi, e não eram sinais de taboa, quem sabe!!!"

Antônio Paulo Granchi é pescador, não de jacarés!