No dia 25 de abril, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em uma de suas freqüentes crises verborrágicas, criticou o comodismo do povo brasileiro, dizendo: “Ele (o brasileiro) não levanta o traseiro do banco, ou da cadeira, para buscar um banco mais barato; reclama toda noite dos juros pagos e, no dia seguinte, não faz nada para mudar". Esqueceu o presidente que é exatamente a finalidade do traseiro do poder cuidar para que o traseiro do povo não sente no colo dos juros altos. Mas, ao fazer tais afirmativas, o presidente Lula presta um grande serviço aos designers de cadeiras que projetam assentos para que os cidadãos, desde os mais plebeus até os mais altos mandatários, descansem os seus traseiros, enquanto fazem o seu trabalho de decidir ou de operacionalizar o que alguém decidiu ou mesmo de esperar que alguém decida.
Logicamente, o traseiro mais vulnerável é o traseiro do povo, a quem o poder destina assentos mais econômicos, tendo o seu usuário que se comprimir em um banquinho qualquer, duro e sem encosto. Isto quando não tiver que ficar em pé horas e até dias nas filas dos serviços públicos.Os designers de cadeiras poderiam criar assentos mais flexíveis para o povo ouvir pacientemente as promessas flexíveis de 10 milhões de empregos nas campanhas eleitorais, aquelas que, de tão flexíveis, são facilmente desmontáveis como arquibancada de circo. Que sobre pelo menos o pão!Poderiam também criar cadeiras infláveis para favorecer uma melhor mobilidade do cidadão nas mudanças no ambiente social e econômico.
Poderiam também os designers criar banquinhos descartáveis para que os políticos ofereçam como brinde nas campanhas, no lugar de camisetas, chaveirinhos e reguinhas, pois assim o povo vai preparando o traseiro para sentar sua esperança, pois em pé cansa. Aos traseiros dos que estão nos serviços públicos para atender os traseiros do povo, os designers podem incrementar uma banquinho com um encosto que, dependendo do nível hierárquico, pode ficar mais alto e encorpado. Para o funcionário que está no atendimento, o encosto é menor. Apenas para uma encostadinha básica, enquanto encaminha o traseiro do povo para outro lugar da repartição ou para lugar nenhum. Para o seu chefe o espaldar ( não diga encosto, porque ele pode se ofender!) já deve encobrir todo o dorso, para proteger suas costas largas contra as reclamações.
Para o chefe do chefe, o diretor ou superintendente, o espaldar é estofadinho e deve ultrapassar o dorso, alcançando a cabeça, para que possa recostá-la, enquanto ele pensa em como se livrar dos outros traseiros. Neste caso, o designer já deve incluir um assento também estofadinho por se tratar de um traseiro de carreira. Em seu caso, já merece também braços na cadeira para que ele possa se apoiar enquanto movimenta o seu traseiro para ajustar-se com desenvoltura às novas medidas e portarias.
Para o chefe do chefe do chefe, o secretário ou ministro, adiciona-se a todas essas melhorias um pouco mais de altura no espaldar, de tal forma que encubra com sobras sua cabeça-pensante, pois ele possui uma cabeça estratégica acima do traseiro. Neste caso, os designers devem incluir braços flexíveis na poltrona para que ele possa levantar-se e empreender rápidas retiradas estratégicas. Para o chefe do chefe do chefe do chefe, o presidente, o espaldar já é bem mais alto, ultrapassando generosamente sua cabeça, até o limite que não encubra ele mesmo na sua foto emparedada. Obviamente, esse espaldar pujante é necessário para impor respeito ao seu traseiro já que, em muitos momentos, a sua cabeça, localizada na parte média do estofado, se apequena, não fazendo juz ao respeito dos milhões de traseiros físicos e jurídicos espalhados pela nação.
O autor, Pedro Antonio Domingues, é professor da Universidade São Francisco