08 de julho de 2026
Geral

Pais se assustam com chamado do MP

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 4 min

Pais com semblante assustado e filhos suando frio. Essa era a imagem refletida na Sala do Júri do Fórum de Bauru, ontem à noite, pouco antes da reunião convocada pela Promotoria da Infância e Juventude para tratar sobre a evasão escolar. O encontro teve início por volta das 18h30 e contou com a participação de cerca de 150 pessoas, entre estudantes e seus responsáveis, educadores, Conselho Tutelar, o juiz da Vara da Infância e Juventude, Ubirajara Maintinguer, e o promotor Lucas Pimentel Oliveira.

Apesar da chuva e do frio, a adesão ao encontro foi quase unânime. Haviam sido convocados 81 alunos, que deveriam comparecer com os seus responsáveis. Muitos pais, a maioria deles moradores da zona noroeste de Bauru, ainda estavam sem entender direito por que haviam sido chamados pela promotoria.

A trabalhadora rural Jaqueline de Paula Silva, moradora do Núcleo Fortunato Rocha Lima, conta que assustou ao receber a convocação para comparecer ao Fórum devido à quantidade de faltas da filha Raquel de Paula Silva, que cursa a 5.ª série do ensino fundamental da Escola Estadual “Iracema de Castro Amarante”. “Nunca tinha sido chamada nem mesmo na escola por causa do comportamento dela. De repente, recebo esse comunicado. Fiquei muito preocupada”, relatou.

Ela disse que a filha faltou bastante às aulas no início deste ano porque perdia o ônibus. “Ela entra às 11h e perde a condução porque fica brincando na rua”, destacou.

Para Jaqueline, as faltas eram encaradas como uma situação normal. “Nunca vi problema com relação a isso”, afirmou. De acordo com ela, quem ficou bem nervosa com a convocação foi a menina. “Ela está suando frio”, frisou.

Já o funcionário público Carlos Alberto da Silva estava confuso com a convocação. “Meu filho não costuma faltar às aulas, não sei por que fui chamado aqui”, disse.

Ele e a mulher, Lindalva Martins Santos da Silva, estavam junto com o filho, Jonathan da Silva, 15 anos, estudante do 2.º ano do ensino médio da Escola Estadual Stela Machado.

Eles explicaram que costumam acompanhar de perto o desempenho dos filhos na escola e nunca tiveram nenhuma reclamação com relação à quantidade de faltas do menino. “Esse ano, ele só ficou sem ir à escola quando a diretora deu suspensão para todos os alunos da sala por indisciplina. Mas aí, não foi só ele”, destacou a mãe.

Com um bebê de 15 dias de vida no colo, a dona de casa Eliana Soares da Silva, moradora do Parque Jaraguá, estava preocupada com o que iria ouvir na reunião. “Quando a convocação chegou em casa, levei um susto”, salientou.

Ela assume que o filho, Gabriel Augusto da Silva Santos, 11 anos, não gosta de ir à escola. “Mas não imaginava que ele tinha tantas faltas a ponto de ser chamada para vir ao Fórum”, destacou.

Como o pai do menino já faleceu, ela compareceu sozinha à reunião para acompanhar o filho. “Espero que depois desse chamado, ele melhore e volte a freqüentar a sala de aula”, salientou.

Responsabilidade

A dirigente regional de Ensino, Vera Nilce Jarussi Gomes de Sá, que também esteve presente à reunião, explicou que nem todos os alunos convocados para comparecer ao encontro estavam com sérios problemas de evasão escolar. “Os diretores das escolas fizeram um levantamento para verificar quais estudantes tinham mais falta, mas foi levado em conta também o comportamento em sala de aula”, destacou.

Segundo a dirigente, é fundamental ressaltar aos pais a importância de zelarem pela vida escolar das crianças e adolescentes. “Os alunos mais velhos são os que mais nos preocupam, pois, algumas vezes, podem estar deixando de ir à escola para se envolver em coisas erradas, como o uso de drogas.”

Se um dos objetivos era alertar os pais sobre a necessidade de dedicar mais atenção ao estudo dos filhos, o encontro teve um bom retorno. A dirigente de Ensino lembrou que o chamado da diretoria da escola nem sempre é atendido. “Agora, quando o Ministério Público chama, é outra história, a coisa fica mais séria e as pessoas se envolvem mais”, destacou.

Uma reunião semelhante foi realizada em outubro do ano passado e o resultado foi positivo, segundo Sá. “O retorno à sala de aula foi imediato.”

Ela explicou que, de 2003 para 2004, a evasão escolar caiu de 3% para 0,7% em média no Estado de São Paulo. Embora esse dado não esteja diretamente ligado à convocação da promotoria, Sá destacou que a preocupação do MP e da Vara da Infância e Juventude está ajudando a trazer os estudantes de volta à escola.

O promotor da Infância e Juventude, Lucas Pimentel Oliveira, ressaltou que foram chamados para a reunião os estudantes que tinham uma média de sete faltas injustificadas. “A medida é preventiva. Não chamamos apenas os alunos com grande problema de faltas, mas também aqueles que sinalizam para uma evasão escolar”, frisou.

A reunião foi aberta pelo juiz Ubirajara Maintiguer, que frisou no seu discurso a importância e a necessidade dos pais acompanharem de perto o desenvolvimento escolar de seus filhos. “O estudo é que vai preparar essas crianças e jovens para o trabalho, para serem cidadãos plenos de responsabilidade”, disse.

Ele lembrou ainda que os pais têm obrigações legais de matricular seus filhos na escola e estimulá-los a freqüentar as aulas.