08 de julho de 2026
Geral

Vida acelerada deixa dias mais curtos e aumenta o estresse

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 3 min

Você já percebeu que os dias e os anos estão voando e que há uma sensação de que o tempo está curto demais para se fazer tudo aquilo que se deseja? Pois é, você não está errado, porém, o dia continua com 24 horas, a hora ainda tem 60 minutos e o minuto, 60 segundos. Ufa! Ainda bem. Não estamos malucos. Mas o que nos leva então a ter essa sensação de que a vida está acelerada demais?

Simples: o homem moderno entrou no mesmo ritmo da chamada linha de produção industrial. É o que pensa o professor de antropologia Cláudio Bertolli Filho, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, doutor em História Social pela Universidade de São Paulo (USP). Ele conta que essa situação não é nova como se pensa.

“Desde a Revolução Industrial, a modernidade tem cobrado do homem um maior número de atividades diárias. Isso impõe que haja, freqüentemente, um acúmulo cada vez maior de atividades. Na verdade, as ações humanas estão repetindo o mesmo ritmo da produção das mercadorias”, diz.

“Mais do que isso, fazer poucas coisas no cotidiano, ou seja, ter um ritmo lento de vida, acaba sendo pensado como preguiça, falta de motivação ou perda de vida. A própria noção de viver bem na sociedade contemporânea significa que eu faço uma série de coisas por dia”, analisa Bertolli.

Essa idéia de movimento frenético é típico das grandes metrópoles, onde o formigueiro de pessoas que transita velozmente pelas ruas e avenidas, com olhar cabisbaixo, confirma a estupidez da modernidade.

“A grande cidade reclama para si essa vida frenética, esse dia de poucas horas para se cumprir todas as atividades. Isso projeta para as cidades do Interior a tranqüilidade, o ritmo lento de se viver. Isso cria uma perspectiva ambígua . De um lado é bom porque é lá que vou passar as férias, recuperar as energias. De outro, é um lugar que eu não gostaria de viver comumente porque vou me sentir um caipira”, observa o professor.

Para ele, há uma tendência tradicional de se dizer que essa “vida maluca” vai levar à destruição do homem. “Isso não acontecerá. Há uma mudança na identidade dos homens. Claro está que isso cria problemas de saúde mental. O indivíduo chega a um momento que, de tanto fazer uma série de atividades ao mesmo tempo, perde os parâmetros. Mas também assume a idéia de que nada é eterno, de que tudo é muito rápido e substituível”, explica.

Modernidade

O professor Cláudio Bertolli Filho tem razão quando diz que essa situação de vida veloz não é nova. O poeta Rodrigues de Abreu, que viveu boa parte de sua vida em Bauru, traz à tona no seu poema intitulado “Bauru” o cotidiano corrido da cidade já no início do século passado.

“O tempo está curto demais. Todos os anos falo: nossa, já estamos em dezembro. É Natal!”, comenta a promotora de vendas Fernanda Arantes, 19 anos.

Não foi fácil entrevistar pessoas no Calçadão da Batista de Carvalho. “Desculpe, estou com pressa”, disse um moço com passos largos. “Não posso. Tenho cinco minutos para chegar ao banco”, justificou uma moça, apontando para o relógio, sem diminuir a velocidade de suas passadas. â€œÉ rápido?”, perguntou um senhor de meia idade, que desistiu em questão de segundos ao perceber que poderia perder seu ônibus.

Entre uma e outra intervenção, a conquista de mais um entrevistado. “Vivemos num mundo louco e globalizado”, resume o supervisor de vendas Márcio Jordan, 32 anos. “Trabalho dez horas por dia e mesmo assim o tempo voa. É rápido demais”, conclui, encenando o movimento dos primeiros passos como quem diz: “Preciso ir”.

Na espera de mais um flash de depoimento, observa-se a face preocupada, muitas vezes até mesmo carrancuda das pessoas que preferem o Calçadão da Batista como via de pedestre rápida, descongestionada, portanto, em condições para servir de pista para uma ‘corrida de humanos’ que parece não ter fim.