Você já percebeu que os dias e os anos estão voando e que há uma sensação de que o tempo está curto demais para se fazer tudo aquilo que se deseja? Pois é, você não está errado, porém, o dia continua com 24 horas, a hora ainda tem 60 minutos e o minuto, 60 segundos. Ufa! Ainda bem. Não estamos malucos. Mas o que nos leva então a ter essa sensação de que a vida está acelerada demais?
Simples: o homem moderno entrou no mesmo ritmo da chamada linha de produção industrial. É o que pensa o professor de antropologia Cláudio Bertolli Filho, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, doutor em História Social pela Universidade de São Paulo (USP). Ele conta que essa situação não é nova como se pensa.
“Desde a Revolução Industrial, a modernidade tem cobrado do homem um maior número de atividades diárias. Isso impõe que haja, freqüentemente, um acúmulo cada vez maior de atividades. Na verdade, as ações humanas estão repetindo o mesmo ritmo da produção das mercadoriasâ€, diz.
“Mais do que isso, fazer poucas coisas no cotidiano, ou seja, ter um ritmo lento de vida, acaba sendo pensado como preguiça, falta de motivação ou perda de vida. A própria noção de viver bem na sociedade contemporânea significa que eu faço uma série de coisas por diaâ€, analisa Bertolli.
Essa idéia de movimento frenético é típico das grandes metrópoles, onde o formigueiro de pessoas que transita velozmente pelas ruas e avenidas, com olhar cabisbaixo, confirma a estupidez da modernidade.
“A grande cidade reclama para si essa vida frenética, esse dia de poucas horas para se cumprir todas as atividades. Isso projeta para as cidades do Interior a tranqüilidade, o ritmo lento de se viver. Isso cria uma perspectiva ambígua . De um lado é bom porque é lá que vou passar as férias, recuperar as energias. De outro, é um lugar que eu não gostaria de viver comumente porque vou me sentir um caipiraâ€, observa o professor.
Para ele, há uma tendência tradicional de se dizer que essa “vida maluca†vai levar à destruição do homem. “Isso não acontecerá. Há uma mudança na identidade dos homens. Claro está que isso cria problemas de saúde mental. O indivíduo chega a um momento que, de tanto fazer uma série de atividades ao mesmo tempo, perde os parâmetros. Mas também assume a idéia de que nada é eterno, de que tudo é muito rápido e substituívelâ€, explica.
Modernidade
O professor Cláudio Bertolli Filho tem razão quando diz que essa situação de vida veloz não é nova. O poeta Rodrigues de Abreu, que viveu boa parte de sua vida em Bauru, traz à tona no seu poema intitulado “Bauru†o cotidiano corrido da cidade já no início do século passado.
“O tempo está curto demais. Todos os anos falo: nossa, já estamos em dezembro. É Natal!â€, comenta a promotora de vendas Fernanda Arantes, 19 anos.
Não foi fácil entrevistar pessoas no Calçadão da Batista de Carvalho. “Desculpe, estou com pressaâ€, disse um moço com passos largos. “Não posso. Tenho cinco minutos para chegar ao bancoâ€, justificou uma moça, apontando para o relógio, sem diminuir a velocidade de suas passadas. â€œÉ rápido?â€, perguntou um senhor de meia idade, que desistiu em questão de segundos ao perceber que poderia perder seu ônibus.
Entre uma e outra intervenção, a conquista de mais um entrevistado. “Vivemos num mundo louco e globalizadoâ€, resume o supervisor de vendas Márcio Jordan, 32 anos. “Trabalho dez horas por dia e mesmo assim o tempo voa. É rápido demaisâ€, conclui, encenando o movimento dos primeiros passos como quem diz: “Preciso irâ€.
Na espera de mais um flash de depoimento, observa-se a face preocupada, muitas vezes até mesmo carrancuda das pessoas que preferem o Calçadão da Batista como via de pedestre rápida, descongestionada, portanto, em condições para servir de pista para uma ‘corrida de humanos’ que parece não ter fim.