O memorialista Luciano Dias Pires, 77 anos, também utiliza as quadras 5 e 6 da rua Araújo Leite e a praça Washington Luiz como ponto de partida de um projeto elaborado por ele para aliviar, ao menos em parte, as deficiências na divulgação dos marcos históricos de Bauru.
As “caminhadas históricas” já levaram alunos de várias escolas a percorrer um trajeto pelos principais pontos centrais da cidade que no passado tiveram importância destacada na história local. Pires lamenta, no entanto, a falta de interesse pelo projeto que tem tido baixa procura. “Fizemos umas 20 caminhadas, mas a iniciativa foi perdendo força”, diz.
Nas caminhadas, os “viajantes da história” passam, por exemplo, pelo local onde foi instalado o primeiro hotel da cidade, na esquina das ruas Araújo Leite e Marcondes Salgado. Hoje, nada lembra os dias de glória do Grande Hotel Dix. “Está tudo descaracterizado, mas poderia haver pelo menos uma placa”, diz Pires, para quem a legislação sobre tombamentos chegou tarde demais. “Muita coisa se perdeu”, lamenta.
A caminhada segue até a praça Rui Barbosa, inaugurada em 1914 e considerada pelo memorialista como a principal referência histórica da cidade. “Toda a cidade girava no entorno da praça”, comenta, lembrando que, no início do século passado, lá se instalaram a primeira igreja, o primeiro prédio próprio da Câmara Municipal, os serviços de correio e de água, delegacia de polícia e até um jornal - o Cidade de Bauru - que foi “empastelado” em 1910, numa ação criminosa creditada a inimigos políticos do então proprietário.
Outro ponto obrigatório no trajeto é a rua Primeiro de Agosto, que nas primeiras décadas do século passado foi o principal ponto de encontro dos bauruenses, desde jovens que a utilizavam como palco do tradicional “footing” - uma antiga forma de paquera -, até políticos que decidiam o futuro da cidade. Por lá já passaram a Câmara e a prefeitura, vários bares importantes, sedes de clubes, cinemas e empresas.
Na seqüência, parada inevitável é no complexo da antiga estrada de ferro Noroeste do Brasil, na praça Machado de Mello, que inclui o grande prédio da estação e a administração. Mesmo com a decadência da ferrovia, Pires considera o conjunto, inaugurado em 1939, uma referência ainda marcante na paisagem urbanística de Bauru.
Firmas que vêm e vão
A rua Batista de Carvalho, atual Calçadão, é a próxima etapa da caminhada, ocasião em que o memorialista Luciano Dias Pires destaca a vocação comercial da via. Nela, instalaram-se algumas das principais firmas do País, que já enxergavam em Bauru o potencial varejista que se consolidaria nos anos seguintes.
Algumas destas empresas “estrangeiras” tiveram presença marcante na história da cidade, ocupando vários imóveis, como as Lojas Americanas, a Drogasil e a Pernambucanas, a mais antiga delas a chegar à cidade, em 1918.
Outras firmas locais, mesmo algumas surgidas nas primeiras décadas do século passado, ainda resistem às pressões dos novos tempos de globalização e mantêm suas portas abertas, como as casas São Jorge, Cecy, Nova, Carvalho e Sampaio. “São firmas que mesmo ‘espremidas’ pelos grandes magazines, ainda estão em funcionamento”, comenta Pires.
Exemplo em contrário, porém, é apresentado pelo memorialista Gabriel Ruiz Pelegrina, que acompanhou de perto a trajetória do primeiro posto de gasolina a se instalar na cidade, na esquina das ruas Araújo Leite e Júlio Prestes. Morador no local, Pelegrina lembra que em 1931 surgia o Posto Esso numa resposta à demanda de veículos provocada pelo importante tráfego na rua Araújo Leite.
Ele lembra que o nome da firma de combustíveis mudou diversas vezes, mas o posto manteve-se ativo até exatos dois anos atrás, quando acabou fechado após uma fiscalização detectar a comercialização de combustível adulterado. Hoje, a histórica esquina ainda abriga as instalações do posto de gasolina, que estão totalmente abandonadas. É o triste fim de um pioneiro...