As recentes declarações feitas pelo deputado estadual Manoel Isidório de Santana (PT-Bahia) contra o exame de toque retal causaram grande preocupação entre os urologistas brasileiros. Segundo o presidente da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), Aguinaldo Nardi, o preconceito impede o diagnóstico precoce do câncer de próstata e isso aumenta o risco de morte entre os homens com mais de 45 anos.
O deputado usou cerca de 25 minutos de uma sessão na Assembléia Legislativa da Bahia para discursar contra o exame. Depois de alegar ter sido “deflorado” violentamente pelo médico, ele acrescentou que quase desmaiou no consultório, que ainda estava vendo estrelas e que o procedimento é desmoralizante para um pai de família.
Nardi rebate que o toque retal é considerado o método mais eficaz para se descobrir alterações na próstata. O exame consiste no toque da glândula com o dedo através do ânus. Ninguém nega que é um procedimento desconfortável, mas o toque dura apenas de três a cinco segundos e permite ao médico identificar qualquer alteração na próstata.
O toque retal é tão importante para prevenir o câncer masculino como o exame ginecológico para prevenir o câncer feminino. Com a diferença que a mulher se submete ao exame anualmente desde a adolescência e, para os homens, o toque retal só é indicado a partir dos 40-45 anos.
“As palavras do Sargento Isidório, proferidas um misto de galhofa, ironia e desabafo, foram amplamente reproduzidas pela mídia e se tornaram motivo de piadas pelo Brasil afora. A realidade nos mostra, contudo, que o assunto não tem graça nenhuma. O toque retal está para o câncer de próstata assim como o termômetro está para a febre”, adverte o presidente da SBU.
Para o urologista, a sociedade deve aproveitar a atitude do parlamentar baiano para discutir mais profundamente o câncer de próstata e sua prevenção. “O Sargento Isidório é um homem comum, simples, de origem humilde, e suas opiniões a respeito do toque retal refletem o pensamento da maioria dos brasileiros. Ou seja, predomina no universo masculino o preconceito em relação a esse tipo de exame, mesmo sendo utilizado universalmente como método eficaz para o urologista detectar indícios de câncer de próstata”, comenta Nardi.
“Como o preconceito, regra geral, decorre da ignorância, da desinformação, e não podendo o urologista abdicar do toque retal em seus pacientes, devemos atuar no sentido de esclarecer a opinião pública sobre a importância desse procedimento (...) A incidência do câncer de próstata vem aumentando nos últimos anos, a ponto de ser hoje o tipo de câncer que mais atinge os homens e o segundo que mais mata”, acrescenta.
Estimativas indicam que, só nesse ano, pelo menos 540 mil novos casos da doença deverão ser registrados no mundo. E os riscos aumentam com o envelhecimento.
Quanto mais cedo se descobre o câncer, maiores são suas chances de cura. Identificada num estágio inicial, a doença pode ser curada em 90% dos casos. O diagnóstico tardio, porém, reduz as possibilidades de tratamento, aumenta o risco de morte e prejudica significativamente a qualidade de vida do paciente.
Atualmente, a medicina dispõe de dois recursos para diagnosticar o câncer de próstata. Um deles é a dosagem de Antígeno Prostático Específico (PSA), feito por exame de sangue. O problema é que apenas 28% dos resultados apontam corretamente os casos de câncer, segundo o Ministério da Saúde, ou seja, dosagens normais de PSA não garantem ausência do tumor. Portanto, o toque retal é um exame indispensável.
“Assim, os homens, especialmente aqueles com mais de 45 anos, não devem dar vez à ignorância. Oque causou a dor que o Sargento Isidório disse ter sentido foi seu próprio preconceito, e não o exame a que se submeteu. Procedimento médico simples, o toque retal dura de três a cinco segundos, é feito em condições de absoluto conforto para o paciente e, mais importante, pode significar uma vida longa e com qualidade”, encerra Nardi.