09 de julho de 2026
Articulistas

O Bento brasileiro


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O que faz diferença entre Luiz Inácio Lula da Silva, Geraldo Alckmin, Aécio Neves, César Maia e Anthony Garotinho, nomes que abrem o palco pré-eleitoral, senão o tom de voz, o jeito de expressar o pensamento, um perfil mais dionisíaco ou apolíneo e as atitudes no trato com as pessoas? Não é, efetivamente, o discurso que faz a diferença entre eles. Até porque, nos últimos tempos, o socialismo do PT mergulhou nas águas profundas da social-democracia tucana, depois de se alimentar no prato econômico do liberalismo mais ortodoxo, que deixa o velho PFL chorando de inveja.

Todos eles exprimem idéias próximas ou semelhantes para combater a violência, acabar com o desemprego e diminuir impostos. Se César Maia quer “vender” a imagem de bom administrador, com posições claras e fortes sobre a realidade nacional, a partir do combate à violência pelo Exército nas ruas, conforme propaga no espaço que do PFL na mídia, Lula também admite a solução, até porque já a usou no Rio de Janeiro. Se Aécio Neves diz que fez o mais sólido ajuste nas contas de Minas Gerais, Estado falido que encontrou para governar, Lula acaba de fixar o teto de 16% do PIB para a carga tributária, entre 2006 e 2008, aproveitando para definir em 17% do PIB o máximo de despesas em custeio da máquina administrativa e pagamento de pessoal.

Garotinho - nele impresso o governo da mulher, Rosinha - aparece como vítima do governo petista, mas não possui referência maior no plano administrativo, a não ser o domínio sobre um grupo entre 20 a 25 deputados do PMDB e a intenção, algo vago, de oferecer um programa ao País. Geraldo Alckmin também se vangloria de realizar uma administração positiva, amparada em rigor técnico, porém é o mais contido dos atuais pré-candidatos, seja pelo uso de uma linguagem comedida, pausada e educada, seja pela convicção de que os fatos têm hora para acontecer. O cardeal Ratzinger chega ao papado, com o nome de Bento XVI, pela contundência com que defende os dogmas da Igreja Católica Apostólica Romana. Político fosse no Brasil, estaria esperando o ciclo eleitoral para dizer o que as pesquisas de opinião pública apontassem como discurso do momento.

Lula tem grande vantagem: porta a chave do cofre maior e possui a força de pontifex maximus. Mas está longe de ser papa. Carrega também desvantagens: a esperança não será mais o leitmotiv da campanha petista. Aécio tem perfil asséptico, tanto pela idade quanto pela administração positiva. César Maia conhece estratégia e pode dourar a imagem. Mas o PFL poderá acabar cedendo a cabeça-de-chapa aos tucanos, conformando-se com o cargo de vice. Garotinho enrola-se na exclusividade do cobertor evangélico, carecendo de um discurso nacional convincente. Alckmin poderá ser o mais forte candidato das oposições. Mas lhe falta ousadia, a capacidade de produzir eventos. E o Brasil sabe pouco a seu respeito.

Cenários à parte, eis condições mais concretas. A primeira: queda ou manutenção da verticalização, que engessa as alianças nos Estados, caso os partidos se aliem no plano federal. Segunda: a posição do PMDB. Na última campanha, fez o maior número de prefeitos, obtendo mais de 14 milhões de votos. Mesmo fragmentado, é o mais capilar. Mantida a verticalização, será praticamente impossível uma aliança entre PMDB e PT. Terceira: a aritmética social. Desde a eleição de Lula, a sociedade procura novos caminhos. Um fato: parcela ponderável dos 52 milhões que o elegeram está indignada contra ele. Seja qual for o perfil a sentar-se no trono do Planalto, terá de caminhar por estrada pavimentada com argamassa que mistura racionalidade, clareza, verdade, compromisso e menos discursos ocos. Em Bento XVI, a profunda convicção - força do compromisso - foi mais importante que o conservadorismo. O Bento brasileiro de 2006 carecerá, sobretudo, da força da credibilidade. (O autor, Gaudêncio Torquato, é jornalista, professor da USP e consultor político)