A mídia internacional e algumas áreas científicas vêm debatendo a questão ética envolvida no uso de ghostwriters (pessoas que escrevem em nome de outras), no processo de comunicação, a partir da divulgação de um caso real ocorrido nos Estados Unidos, envolvendo uma empresa farmacêutica, sua assessoria de comunicação, uma pesquisadora científica e o Jornal of General Internal Medicine (JGIM).
O caso começou com a solicitação da assessoria para que uma pesquisadora médica assinasse um estudo de sua especialidade, de interesse da indústria farmacêutica, para publicação no JGIM. Ela se recusou e a assessoria conseguiu outro cientista para assumir a autoria, mas por coincidência o artigo foi parar nas mãos da primeira pesquisadora, que é membro do Comitê da Avaliação de artigos do JGIM. O resultado é que em vez do estudo ser publicado, saiu um artigo da pesquisadora relatando o caso e criticando essa forma de agir dos laboratórios farmacêuticos. A indústria se defendeu com a afirmação de que é comum as empresas do setor recorrerem a escritores profissionais para desenvolver seus manuscritos, enquanto a assessoria buscou explicar que ocorrera um engano, o que o editor do jornal não considerou uma desculpa viável.
O debate ético está focado em saber se pode ser considerado legítimo assinar um artigo do qual não se foi o autor, e particularmente, um texto científico, que pode influenciar os profissionais de um determinado segmento, em benefício dos negócios de uma empresa. Escrever artigos, palestras, discursos em nome de outros é uma atividade muito comum, conhecida como ghostwriting e existem pessoas (ghostwriter) para as quais esse é um trabalho regular. A dúvida é se deve ser avaliado da mesma forma textos encomendados a terceiros e aqueles já preparados para os quais se busca um nome de prestígio que assuma a autoria. No primeiro caso, todas as assessorias de comunicação, bem como escritores, jornalistas e outros profissionais prepararam artigos, palestras, discursos e até livros para seus clientes. O problema ético ocorre em casos como o que gerou o debate, ou seja, quando o artigo é feito por alguém por solicitação do cliente, e se busca um profissional, em troca de dinheiro, ou outro benefício, para dar credibilidade a uma tese controversa. Há especialistas que aceitam referendar esses artigos até sem pagamento, apenas pelo prestígio de ver seu nome publicado como autor da pesquisa que não fez, mas que vai valorizar seu currículo.
São três os deslizes éticos nesse caso: o primeiro da empresa que procura um autor para uma pesquisa que ela fez e não quer assumir diretamente, o segundo da assessoria que se dispõe a fazer esse papel e o terceiro do pesquisador que se dispõe a assumir a paternidade do artigo por razões pecuniárias ou de prestígio acadêmico. Portanto, a atividade de ghostwriter é não só legítima como necessária na sociedade moderna para assessorar pessoas que precisam manifestar seus pontos de vista e não têm tempo ou habilidade na redação para fazê-lo sozinhas. Mas não deve ser confundida com a tentativa de buscar pesquisadores de reconhecida credibilidade para assinar estudos ou teses científicas das quais eles não foram autores.
O autor, Mário Ernesto Humberg, é conferencista e consultor de ética empresarial