Ao buscar no mapa o extremo sul da cidade de Bauru, o JC nos Bairros encontrou no que era para ser o Jardim Marabá alguns estabelecimentos comerciais (bares) montados na rua principal em resposta à demanda provocada pela presença de uma universidade - a Unip - e apenas alguns valentes moradores que resolveram desafiar a falta de estrutura urbanística e, principalmente, os posseiros que ocuparam a quase totalidade da área com suas criações e plantações.
Surgido antes da obrigatoriedade legal de urbanização, o loteamento que virou o Jardim Marabá assume ares de zona rural, apesar de ser considerado área urbana, com a devida cobrança de Imposto Territorial e Predial Urbano (IPTU).
O presidente da Associação de Proprietários de Imóveis do Jardim Marabá, José Martinho Teixeira da Silva, conta que a entidade - que agregou outras duas áreas, o Parque Santa Rita e o Jardim Alto Bauru - já entrou com um pedido de reintegração de posse, que aguarda a avaliação de um perito.
“Mas o Marabá não deu quórum”, conta, numa referência ao fato de que os proprietários da região recuaram da ação devido aos custos do processo. Com isso, o processo abrange apenas as áreas no Santa Rita e no Alto Bauru.
Silva lembra que em 2003 ainda na gestão de Nilson Costa, a entidade chegou a tentar um acordo com a prefeitura para reabrir as ruas, que já existiram, têm nome, mas acabaram tomadas pelo mato. A prefeitura cederia as máquinas, tratoristas e um topógrafo e, em contrapartida, os proprietários de lotes arcariam com o custo do óleo diesel. O acordo não vingou e Silva espera agora conseguir um solução para área com o novo prefeito.
Além dos comerciantes que aproveitam o movimento da universidade, poucos moradores residem no Marabá. A dona de casa Ivone Galdino dos Santos, 25 anos, mora em uma pequena chácara às margens da rua principal do bairro, mas reclama das carências básicas.
A água só chega através de caminhões-pipa do Departamento de Água e Esgoto (DAE), que passam no local duas vezes por semana, e os ônibus atendem apenas a região da universidade, além de não transitar aos finais de semana. “Quando visito os parentes na cidade, tenho de ir na sexta e voltar na segunda”, comenta.
A deficiência no transporte público atinge em cheio os moradores, que precisam percorrer vários quilômetros para chegar a um posto de saúde ou a uma escola. A dona de casa acabou matriculando o filho de 10 anos numa escola de Agudos, cuja prefeitura garante o transporte do garoto - ela nem chegou a solicitar o serviço à Secretaria Municipal da Educação.
Mesmo assim, Silva diz que “sempre gostou de morar do local” e que “não vê a hora” de voltar casa quando precisa ir para a cidade. “Vivemos num lugar sossegado, sem violência, com bastante espaço para as crianças brincar”, comenta, ao lado da mãe Maria Cícera Galdino, 63 anos, que mora na propriedade ao lado.
O estudante Izair Cuevas, 25 anos, que mora com os tios numa casa também às margens da rua principal, está no local há dois anos e reconhece o isolamento. “O bairro é pouco habitado, não há vizinhos e só tem os ‘botecos’”, constata. Sua casa também tem aspecto de um sítio, com plantações e criação de animais. “Meu tio sempre mexeu com gado e gosta de morar aqui”, conclui.