09 de julho de 2026
Articulistas

Trabalho em vez de auxílio


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Estamos vivendo um período de excessivo assistencialismo. Enquanto aumenta o número de programas de assistência aos excluídos, mais aumenta o número dos desempregados e, conseqüentemente, o número dos excluídos. Ficou cena comum na televisão aparecer uma mulher dizendo que se não fosse o que recebe de ajuda do governo estariam passando fome - ela com filhos maiores e marido desempregados. As verbas públicas, corroídas pela corrupção e retalhadas pelos programas assistenciais, não são mais suficientes para os serviços públicos de segurança, educação, saúde e saneamento básico. Enquanto aumenta o número dos assistidos, diminui o número dos produtivos que, conseqüentemente, passam a suportar uma carga tributária cada vez maior.

Salvo engano, o escritor Graciliano Ramos, autor de São Bernardo, Vidas Secas, Caetés e outras belas obras de nossa literatura, quando foi prefeito de Palmeira dos Índios, em Alagoas, acabou com a mendicância. Em vez de albergue e sopão para os mendigos ficarem perambulando pelas ruas, deu uma vassoura para cada um cuidar da limpeza da cidade. A idéia era que, passando a receber comida, agasalho e moradia com o seu próprio trabalho, o mendigo readquiria a dignidade e voltaria a ser um cidadão útil. A assistência deve ser garantida a quem não tenha condições de trabalhar por motivo de idade ou saúde e não tenha de quem depender. Mas dar assistência indiscriminadamente só faz aumentar o número dos que ficam na dependência de um número cada vez menor de produtivos, além de facilitar a proliferação dos roedores do dinheiro público, que desviam verbas e alimentos. A professora Egli Muniz, secretária do Bem-Estar Social de Bauru, já tomou consciência dessa situação e criou o Centro de Referência da Assistência Social, numa iniciativa para atacar o problema.

Em entrevista publicada na Folha tempos atrás, o historiador americano Kenneth Serbin, falando sobre o governo Lula disse: “Surpreende-me que Lula não tenha criado frentes de trabalho. Não daquelas antigas do Nordeste para arar terra. Frentes de trabalho urbano, com tanta gente sem trabalho em São Paulo. Falta criatividade.” Vejam quantas obras do governo, nas três esferas, estão por fazer ou estão se estragando por falta de manutenção - prédios inacabados ao abandono, escolas, centros de saúde e cadeias sendo interditados, ruas e estradas intransitáveis, enfim, tanta coisa para ser feita e tanta gente desempregada. Se parte das verbas asistenciais fosse destinada a frentes de trabalho nas estradas e prédios públicos que estão sendo interditados pela Justiça devido às péssimas condições, não teríamos mais pessoas empregadas sustentando sua família e menos dependentes do auxílio público? Pode parecer utópico, mas quando verificamos que pessoas em condições de trabalhar, cansadas de procurar emprego, acomodam-se quando a família recebe a cesta básica, que os sem-terra levam uma vida nômade, de invasão em invasão, sustentados por verbas assistenciais, que muitos trabalham um pequeno período para receber o seguro-desemprego, enfim, quando observarmos essas situações e o montante das verbas destinadas à assistência, concluímos que muitas obras e serviços públicos poderiam ser feitos com elas, dando emprego e dignidade às pessoas em condições de trabalhar. (O autor, Pedro Grava Zanotelli, é consultor e ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru)