10 de julho de 2026
Economia & Negócios

Abit levanta prejuízos do setor

Por Murilo Murça de Carvalho | Correspondente JC em Brasília
| Tempo de leitura: 4 min

A Associação Brasileira da Indústria Têxtil (ABIT) está promovendo levantamento de dados para comprovar os prejuízos ao setor provocados pela abertura do mercado nacional às importações chinesas e dar entrada em um pedido de investigação junto ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), para posterior adoção de salvaguardas à indústria brasileira, pelas regras da Organização Mundial de Saúde (OMC).

O presidente da ABIT, Josué Christiano Gomes da Silva, lembra que o déficit brasileiro com a China no comércio de têxteis é contínuo desde 1995, com a exportação de algodão e importação de sintéticos chineses, que aumentou em 600% em fios. Também presidente da Coteminas, uma das maiores indústrias nacionais do setor, Gomes da Silva apontou o crescimento das vendas da China ao Brasil no setor têxtil e vestuário. Em 2003, esse aumento foi de 21% e, no ano passado, 61%.

O presidente da ABIT cita, ainda, evidência de ilegalidade pelo fato de os produtos chineses chegarem ao Brasil com preços médio inferior em 79% aos praticados pelas mesmas indústrias da China no mercado norte-americano - luvas a R$ 0,04 e calças masculinas a R$ 0,50. Essa é uma ameaça direta ao emprego de 1,5 milhão de trabalhadores, 66 mil deles contratados no ano passado, disse o empresário que representa cerca de 30 mil empresas da cadeia têxtil, que vai da produção de fibras às confecções.

A concorrência desleal agravada por vendas subfaturadas, segundo Gomes da Silva, deve afetar o crescimento do setor, que foi de 8% em 2004 em relação ao ano anterior, com faturamento de US$ 25 bilhões e exportações de US$ 2,1 bilhões. O Brasil, segundo ele, deve seguir o exemplo dos Estados Unidos e Argentina, que já se impuseram salvaguardas em relação aos produtos têxteis chineses e, como a União Européia, estudam a ampliação dessas salvaguardas para outros setores.

Assim como a totalidade dos exportadores, a ABIT também critica outros fatores restritivos decorrentes da política econômica nacional de câmbio supervalorizado – o que se agrava frente à moeda chinesa sub-valorizada em estimados 30% – , juros excessivos e elevada carga tributária, tudo isso ao lado de outros elementos do “custo Brasil”, como a precariedade em infra-estrutura de transportes e portos.

Gomes da Silva demonstra, ainda, apreensão com a possibilidade de que a China, como grande consumidora, passem a controlar os preços internacionais de produtos de exportação brasileiros, principalmente algodão, seda, fibras e juta. A China, disse, não pratica economia de mercado e ainda é o maior produtor de marcas falsificadas do mercado mundial.

Representante do setor têxtil, ele aponta outro dos grandes prejudicados pela abertura de mercado aos chineses, o setor calçadista, que já amarga a perda de cinco mil empregos no Vale dos Sinos, no Rio Grande do Sul. Apesar dos pesados investimentos do setor e desenvolvimento técnico e comercial constantes, as vendas de calçados continuam no patamar de R$ 1,8 bilhão registrado em 1993.

Brinquedos

O cenário é semelhante na indústria de brinquedos, cujo mercado interno já é dominado por 35% de importados da Coréia, Japão e, principalmente, da China. A queixa dos fabricantes é tanto o preço artificialmente baixo devido às distorções de formação de custos na China, a baixa qualidade e a alta escala de produção, como pelo subfaturamento e o contrabando puro e simples.

A gravidade da situação justificou a decisão do governo de prorrogar até junho de 2006 a salvaguarda de proteção do setor, que adiciona 9% à alíquota de 20% aplicada às importações. Esse percentual cai para 8%, em dezembro. O que não resolve o problema do subfaturamento, segundo o presidente da Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos (Abrinq), Synésio Batista da Costa, diante da constatação de que a média mundial do quilo de brinquedo, de US$ 10, no Brasil cai para US$ 3,40.

Estes fatores somados à carga tributária e à queda do dólar, resultaram, segundo a Abrinq, no fechamento, desde 2002, de 32 indústrias e a redução dos postos de trabalho de 25 mil para 19 mil trabalhadores. Apesar das dificuldades, Costa espera que o setor cresça de quatro a cinco por cento, este ano, com o faturamento indo de R$ 850 milhões para R$ 900 milhões. Em parte com a ajuda de exportações, principalmente para a América Latina, de brinquedos educativos, que se constituem em um diferencial que dificilmente poderia ser copiado pelos asiáticos.