10 de julho de 2026
Cultura

(Des)união de artistas plásticos

Da Redação
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Notórios por serem trabalhadores solitários, confinados em seus ateliês e estúdios, os artistas plásticos ficam ainda em desvantagem no quesito organização, se comparados a outros trabalhadores da arte e da cultura. Enquanto grupos, academias e representantes da dança, do teatro e do cinema e vídeo de Bauru vêm procurando unir-se em associações e entidades culturais nos últimos meses, a categoria dos artistas plásticos manteve-se distante de qualquer iniciativa similar, apesar da existência da União dos Artistas Plásticos de Bauru (Ubap), atualmente desativada.

As associações de Dança de Bauru (Adba) e de Teatro de Bauru (ATB) tomaram forma com o objetivo de facilitar o acesso dos profissionais à Secretaria Municipal de Cultura (SMC) e outros órgãos, organização de eventos e captação de recursos para a viabilização da produção de arte.

Na opinião do artista Percÿ Coppieters, uma entidade que agregasse os artistas profissionais poderia atuar além da representação com os órgãos de cultura. “Poderia ser como uma cooperativa para compra de materiais, fornecê-los a preço de custo para incentivar a cultura, ou ainda como fábrica de tela e molduras para os pintores. Eu mesmo já dei curso sobre isso em Paraty (RJ). São coisas palpáveis e de resultados imediatos, para produção artística e promoção cultural”, sugere.

No entanto, ele ressalva que um obstáculo à união dos artistas seria a dificuldade de relacionamento entre a própria classe. “O problema são os egos, cada um se acha mais estrela do que o outro. Alguns artistas se acham acima de todos os outros e ficaria difícil congregar todos juntos, a não ser que todos estivessem dispostos a sentar, de igual para igual, com os artistas verdadeiros para se pensar em algo coletivo”, observa Coppieters.

Para o artista plástico José dos Santos Laranjeira, a categoria sofre com a fragilidade do mercado local para comercialização da produção. “Se visualizarmos o panorama da cultura na atualidade, vemos a reduzida possibilidade deles se dedicarem integralmente a seu trabalho produtivo. A grande maioria precisa de outra atividade para poder se sustentar. Apenas como artistas, poucos conseguem”, lamenta. Ele ainda aponta a fragilidade da produção como principal razão para a Ubap permanecer desativada.

Laranjeira relembra que a tradição de individualidade dos artistas plásticos poderia ser um empecilho para os trabalhos em associação, porém destaca que essa não é uma atitude positiva. “Minha última grande exposição foi com mais três artistas. Essa experiência conjunta é possível e fundamental, não só para uma produção representativa, mas para superar essa realidade. Uma associação seria a melhor estratégia para que o artista deixe seu ego na gaveta e parta para a coletividade”, afirma.

A nova geração de artistas plásticos de Bauru também se mostra favorável à retomada da Ubap ou à formação de uma nova associação. É o caso de Ivy Ariadne de Pádua, que vê como interessante e produtiva a iniciativa dos grupos de teatro e de dança. “Por mais que o artista plástico tenha seu trabalho individual e seu estilo, vários profissionais juntos poderiam viabilizar diversas vantagens, como organizar exposições”, diz.

Diferenciação

Os artistas apontam outro obstáculo para a união da classe em uma associação ou entidade cultural: a diferenciação entre os profissionais autodidatas e aqueles com formação universitária ou especialização. O maior problema, no entanto, não seriam os artistas que possuem um histórico de criação e estudo, mas as pessoas que iniciam-se no mundo da pintura, escultura, desenho e da criação digital e afirmam-se artistas plásticos prontamente.

Laranjeira destaca que a SMC possuiria um cadastro com mais de duas centenas de artistas locais, porém poucos desses efetivamente viveriam de sua produção ou possuiriam qualificação para exercer a profissão. “A ausência de uma entidade com participação ativa faz com que qualquer um que pinte alguma coisa se intitule profissional, o que não acontece em outras categorias”, critica.

Ele acrescenta que não vê uma profissionalização obrigatória nas artes e que grandes artistas de todas as épocas foram autodidatas. “Mas todos tinham competência para exercer a profissão. Não é necessária uma educação formal, apesar de achar imprescindível para os jovens. Com a Ubap vindo à tona novamente, teríamos critérios, um conselho consultivo (para cadastrar os artistas)”, frisa.

Para Coppieters, a formação universitária de um artista também não é critério obrigatório para a qualificação de seu trabalho. “Precisamos de uma valorização da expressão ‘artista plástico’. Quando conseguirmos separar o joio do trigo, poderemos montar uma associação realmente voltada para a arte e sua evolução.”

Na opinião de Ivelize DeAgostini, artista plástica que participou da retomada da Ubap na década de 1980, uma entidade da classe hoje deveria ter sua atuação voltada para a arte local e com o propósito de estender o trabalho dos artistas para a população. “Somos uma cidade com tradição em artes plásticas. Mas a arte tem de estar na rua, junto do público, para que a população possa curtir. Uma associação precisaria de uma estrutura para captar recursos, promover projetos e trabalhar com a comunidade”, avalia.

Apoio e incentivo

O secretário municipal de cultura, José Augusto Ribeiro Vinagre, revela que a reorganização de uma entidade de artes plásticas vem sendo discutida da SMC e com profissionais locais, porém com maior dificuldade do que nos outros setores da cultura. A pasta tem tomado contato com os artistas por conta de seu recadastramento, promovido nas últimas semanas.

“Temos acesso a praticamente todas as pessoas que trabalham com arte em Bauru. A secretaria apoia e incentiva esse tipo de associativismo, mas isso deve partir da própria categoria, de sua necessidade e interesse de estar organizada”, expõe.

“Vejo os artistas plásticos como um grupo um pouco mais complicado (para a criação da entidade) até pela própria natureza do trabalho, que é mais individual. Uma associação que quebrasse esse obstáculo facilitaria o relacionamento dos artistas com a SMC, com órgãos de cultura, viabilizaria atividades, projetos de lei de estímulo”, acrescenta.

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História

A União dos Artistas Plásticos de Bauru (Ubap) foi fundada em 1947 por um grupo de artistas da cidade e região, incluindo João Ponce Paz, Walter Morthari e Gabriel Pellegrina, entre outros. Na época, a entidade promoveu mostras, concursos e outros eventos com o objetivo de incentivar a produção cultural, de acordo com a artista plástica Ivelize DeAgostini.

No decorrer dos anos, grandes nomes das artes de Bauru passaram pela Ubap e a entidade ainda foi responsável, na década de 1960, pela fundação da Escola de Belas Artes. Ivelize aponta a criação da instituição como responsável pela diminuição do caráter associativo da entidade.

Na década de 1980, a artista foi uma das responsáveis pela reorganização da Ubap, ao lado de Pellegrina. Ela afirma que foram realizados alguns eventos e mostras, com apoio da então Delegacia Municipal de Cultura, inclusive com a divulgação de obras em out-doors pela cidade. No entanto, a dificuldade em captação de recursos do governo ou da iniciativa privada afastou os artistas associados, provocando sua desativação.