O sonho de ter um filho levou duas mulheres que vivem uma relação homoafetiva há mais de 14 anos em Bauru a ingressar na Justiça para adotar uma criança. Elas pretendem participar de todo o processo de adoção em conjunto e fazer com que a criança conte com todos os seus direitos previdenciários e sucessórios. Este é um dos primeiros pedidos do tipo feitos na Comarca de Bauru. Em caso de decisão positiva, a iniciativa poderá abrir precedente para outras pessoas que vivem uma relação homoafetiva.
As duas mulheres não querem efetuar a adoção individual, como é feito costumeiramente pelos homossexuais. â€œÉ mais fácil. Mas já que eu assumo minha opção sexual, quero assumir também a adoção de uma criançaâ€, explica uma delas, que pediu para não ser identificada.
“Nós temos amigos que não têm coragem de enfrentar a situação e já avisaram que vão no nosso vácuo, caso a gente obtenha êxito na empreitada. Eu acho que estamos abrindo caminhosâ€.
O problema, segundo elas, é que os pretendentes terão que procurar um advogado. “Nós recorremos à Procuradoria, mas como a nossa renda é superior à determinada pelo Estado, tivemos que pagar um advogado particular. O processo deve custar cerca de R$ 3 mil.â€
Bem-sucedidas profissionalmente, as duas mulheres alegam que preenchem os requisitos de família. “Temos nossa casa própria, respeitamos uma a outra e desenvolvemos o lado profissional como qualquer casal.â€
Animadas com a hipótese de ver realizado o sonho de ter uma criança em casa, as duas mulheres já procuraram até um plano médico para saber como funciona. “O quarto está sendo preparado, assim como uma edícula para poder secar roupas.â€
A escola que a criança irá freqüentar não foi escolhida, porém, várias delas já foram avaliadas. “Pretendemos adotar uma menina, de mais ou menos 4 meses.â€
As duas planejam até mudar os horários de trabalho para dar mais atenção ao bebê. “Eu vou me afastar por alguns dias do trabalho. Minha amiga faz seu próprio horário, pois é autônoma.â€
Seis anos
A novela Senhora do Destino, da Rede Globo, mostrou ao Brasil todo o caso de duas mulheres que se amavam e resolveram adotar uma criança. Na ficção, o juiz concedeu a adoção e tanto a médica Eleonora quanto a estudante Jeniffer, personagens vividas por Milla Christie e Bárbara Borges, respectivamente, puderam realizar o sonho de ter um filho.
No caso de Bauru, as pretendentes sonham com o mesmo final feliz. “Se a decisão for negativa, terei a consciência tranqüila que tentamos. Todo mundo constitui família com quem quer. Nós queremos ter esse mesmo direitoâ€, reivindica.
As adotantes alegam que a novela não as influenciou. “Nós já tínhamos tomado essa decisão há seis anos. Nós queríamos ter a nossa família. Morávamos na casa dos pais da minha amiga. Construímos nossa casa. Moramos num lugar ótimo, cada uma tem seu carro, estamos superbem financeiramente. Agora, estamos prontas para ter uma criança em casa.â€
O questionamento feito por algumas pessoas não incomoda as adotantes. “Todo mundo quer saber se a criança vai gostar de homem ou de mulher. A criança vai ser o que ela quiser ser. Ela vai ter a preferência dela, seja religiosa ou sexual.â€
Elas acreditam que ninguém impõe nada. “Nós vamos educar, como fomos educadas. Ninguém vira homossexual. A pessoa escolhe e pronto. Minha amiga cuidou de mais de dez sobrinhos e nenhum deles é homossexual.â€
A adoção já foi comentada na família das duas. “Não houve resistência. O pessoal quer até fazer chá de bebê. As amigas estão com tudo planejado. Nós somos muito família. Não somos de ficar saindo e nos exibindo por aí de mãos dadas.â€
Elas ressaltam que o preconceito é silencioso. “As pessoas não falam, pelo menos para mim. Mas quando eu digo que vou adotar uma criança, o interlocutor muda de fisionomia na hora.â€
Em função disso, as duas mulheres resolveram não dizer para mais ninguém sobre suas pretensões. “Poucas pessoas sabem, só os amigos mais chegados. Eles dão total apoio. No meu serviço, não falei nada. Não sei qual será a reação das pessoas.â€
Ela teme que os obstáculos sejam supervalorizados. “Minha patroa é uma pessoa muito conhecida na cidade e temo que ela fale isso com alguém que influencie na decisão judicial.â€