08 de julho de 2026
Cultura

Black brasuca

Thaís da Silveira
| Tempo de leitura: 4 min

A escolha é feita a dedo. Entre seus 6.000 LPs, 500 compactos e 700 CDs, DJ Paulão monta um set de músicas de qualidade indiscutível para ninguém ficar parado. Ele abre às 20h de hoje o Especial Samba-rock na área de convivência do Serviço Social do Comércio (Sesc). A noite conta também com um workshop de dança aberto com o professor Moskito e com um show da banda SambaSonics.

Além de DJ, Paulão desenvolve pesquisas sobre música dos anos 60 e 70, com ênfase na produção brasileira. O reflexo de todo esse trabalho está nas pistas, quando o público vai à loucura com os sets de música black com tempero latino, entre outras misturas. No show de hoje, ele dará destaque ao samba-rock.

Paulo Sakae Tahira tem 31 anos e é formado em ciências políticas pela Universidade de Campinas (Unicamp), embora não atue na área. Há 13 anos, ele comanda o programa “Slovak” na Rádio Muda - FM Livre, de Campinas.

Seu trabalho como DJ começou em 1995, em festas black de Campinas. Hoje, ele toca bastante em São Paulo e está começando a trabalhar com músicas autorais para tocar nas pistas. Além disso, está preparando um programa virtual de rádio em parceria com Marco Mattoli, do Clube do Balanço - com quem também quer escrever um livro sobre a história do samba-rock. Outro projeto é uma turnê internacional prevista para agosto, nos Estados Unidos, para a qual Paulão pretende levar muito groove, bossa e “música brazuca dos anos 60 e 70”.

Ele também vai participar da mostra internacional itinerante “Tropicália, uma modernidade paralela no Brasil”, que começa este ano e termina em 2007, passando por diversos países, entre eles os EUA. Confira a seguir trechos da entrevista.

JC - Como você definiria a música que você toca?

Paulão - Nessas apresentações do Sesc Bauru, eu vou enfatizar minha pesquisa no samba-rock. No geral, eu acho que eu sou um DJ meio anti-comecial. Eu gosto de tocar músicas esquecidas, versões esquecidas de sucessos, e é isso que faz o molho da minha performance musical. Meu trabalho está centrado na música dos anos 60 e 70, com ênfase na música brasileira. Eu diria que é um black brasuca - soul e funk brasileiro dos anos 60 e 70.

JC - Tem alguma coisa de música latina?

Paulão - Tem música latina também. Mas é mais um tempero dos sets. Eu gosto muito de música latina e acabo colocando, misturando algumas coisas. Mas não é o eixo da minha discotecagem. É mais uma das referências que eu aglutino.

JC - Quais são as suas “10 mais”?

Paulão - A minha lista sempre muda. Hoje, eu citaria a versão de “16 toneladas” em inglês (“Sixteen Tons”), com Tennessee Ernie Ford. Do Jorge Ben, eu estou ouvindo muito “A Jovem Samba”. Também a música “Abre o Olho”, do (Gilberto) Gil. Tem uma música do Arnaud Rodrigues que se chama “Nega”, que eu acho muito legal; “Zazueira”, com o Bossa Rio; “Eu quero essa mulher assim mesmo”, com Monsueto; “Morro do Barraco Sem Água”, de 75, com Lemos e Debétio; e “No Claro ou no Escuro”, com o Reginaldo Rossy (quando o nome dele ainda se escrevia com “y”). Tem muita coisa; essas são algumas.

JC - Qual é a música que não pode faltar no seu set?

Paulão - Se tem uma que não pode faltar, eu acho que é “Eu bebo sim” - uma versão com Elisete Cardoso. Acho que virou minha marca.

JC - Jorge Ben é uma referência para você?

Paulão - Apesar de ele não ser exatamente um cantor de samba-rock, ele é a maior fonte nacional do samba. Ele é o “rei”, na verdade. É um cara que tem uma pesquisa extremamente autoral e que há 40 anos está à frente do tempo dele. Não dá para pensar na música brasileira sem citar o nome dele. Eu toco várias músicas dele.

JC - Você já foi apontado como um dos precursores da volta do samba-rock. Como você vê esse rótulo?

Paulão - Isso tem que ser tratado com cuidado. Eu fui precursor, de certa forma, dessa popularização do samba-rock que houve nos últimos tempos. Mas o samba-rock não estava morto, ele estava esquecido pela grande mídia. Nos anos 70, o DJ de rádio era o cara que apresentava as músicas novas para o grande público. Dos anos 90 em diante, esse papel é muito dos DJs, que apresentam na pista músicas diferentes. Talvez desta forma eu tenha sido um precursor dessa volta, principalmente em Campinas. Mas o movimento nunca deixou de existir e sempre foi muito forte principalmente na periferia de São Paulo. É um movimento cultural muito forte e não depende de precursores para se desenvolver.