“Geralmente nós, pescadores, conhecemos determinados rios através de nomes que não sabemos o significado, mas que provavelmente foram dados por algum colega pescador.
No rio Batalha, lá em minha cidade Avaí, existem vários trechos com nomes que não sabemos o significado, como: Poço da Maria, do Guapé, da Meia Lua, do Cortado... etc. Nomes dados por algum motivo.
Assim sendo, por um fato a ser narrado, demos um nome a um trecho do rio Paraguai, lá em Porto Esperança, isso em meados de 2000, quando em caravana fomos pescar, ficando alojados no excelente rancho dos engenheiros da antiga Noroeste. Nossa caravana: Adelmo e seu filho Junior e o Kenjo, de Bauru, e Haroldo, Lela e eu, de Avaí.
Ao chegarmos no rancho, descarregamos a nossa tralha, pois já estava entardecendo e ninguém iria pescar, porque a ordem era descansar. Pescaria só no dia seguinte.
Eu, como conhecedor do local, resolvi dar uma visita aos ranchos dos bauruenses, pois Porto Esperança é uma vila de Bauru de tantos pescadores bauruenses freqüentadores do local.
Resolvi primeiro ir ao rancho da Super Moto, onde o Elias recepcionava o coronel Fantini e o pessoal da Polícia Rodoviária, que acabavam de chegar.
Conversa vai, conversa vem, o assunto era sobre onde estava dando peixe. Surgiu boato sobre um poço logo abaixo do poço do Cabral, onde pescadores perderam linhadas com um grande peixe ali morador ou alguma coisa ali existente, mas que ninguém tinha visto a sua cara.
Essa conversa mexeu com o Elias, que disse: “Eu vou pescar e trazer essa coisa!”. Ao mesmo tempo, ele olhou para mim e me convidou para ser seu parceiro nessa aventura, convite que aceitei de imediato.
Na manhã seguinte, meus companheiros foram para o Forte Coimbra e logo depois o Elias me apanhou e fomos direto ao famoso ‘poço’. Lá chegando, a surpresa: o local estava lotado por outros pescadores. O jeito foi arrumar um cantinho onde apoitamos para tentarmos fisgar o famoso peixe ou a coisa ali existente.
E assim passamos a manhã. Por volta do meio-dia, fizemos um lanche rápido e aproveitamos para apoitarmos num lugar melhor, devido que a maioria dos pescadores já tinha desistido e ido embora.
Após o lanche, resolvi tirar uma soneca, enquanto o Elias ficou concentrado na captura do peixe, pois de maneira alguam ele queria sair.
Acordei por volta das 16h e, com surpresa, notei que o Elias ainda estava concentrado na captura do peixe. Ocasião que notei que no local só ficou o nosso barco e um barco com um pessoal de Campinas.
Perguntei ao Elias se houve algum puxão. Ele respondeu que ainda nada, mas que tinha certeza que a partir daquela hora os peixes iriam puxar. Naquele momento, joguei minha linhada na água e fiquei também concentrado na pescaria.
E assim a tarde foi caindo, quando senti um balanço forte no barco. Quando olhei para o Elias, ele gritou: ‘Fisguei o bicho! Puxa a poita e deixa o barco rodar!!!’ E foi o que fiz. Pulei na proa do barco fazendo o leme, enquanto o peixe puxava o Elias e o barco rio abaixo.
Apesar da frição da vara estar aberta, o peixe ou a coisa ainda fazia muita força. Passou quase uma hora de luta e o peixe só deu sinal de cansaço ao chegarmos no Morro do Conselho, numa praia ali existente, o enorme peixe encalhou. Nessa ocasião, nós pudemos ver o quanto era enorme, pesando de 95 a 100 kg, mas de aparência estranha, pois apesar de parecer jaú, o peixe era coberto de bigodes.
Naquele momento, chegou o barco do pessoal de Campinas, quando o piloteiro deles se atirou na água e puxou o estranho animal no barranco. Aí desvendamos o mistério: os bigodes nada mais eram que linhadas que o enorme peixe quebrou de outros companheiros pescadores.
Só eu contei 35 anzóis que o piloteiro tirou da boca do belo animal. E, como prêmio, doamos todos os anzóis ao piloteiro e, em comum acordo com o Elias, resolvemos soltar o valente peixe, ocasião em que fomos aplaudidos pelo pessoal de Campinas.
A notícia correu e o poço abaixo do poço do Cabral, por nossa causa, chama-se hoje Poço da Coisa.”
Sérgio Andrade Moreira é pescador e contador de história.