08 de julho de 2026
Rural

Demanda elevada preocupa cafeicultor

Patrícia Zamboni
| Tempo de leitura: 3 min

No próximo encontro da Organização Internacional do Café (OIC), de 16 a 22 deste mês, estão depositadas as esperanças dos produtores brasileiros de encontrar uma saída a um dilema que se projeta para a safra 2005/06: a oferta mundial de 107 milhões de sacas do produto contra uma demanda estimada em 114 milhões. A idéia é traçar metas baseadas no peso social do café, já que em diversos países da África e Ásia, por exemplo, a população depende dessa cultura para viver.

De acordo com o produtor, presidente do Sindicato Rural de Bauru e Região e vice-presidente da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo (Faesp), Maurício Lima Verde, os cafeicultores estão enfrentando um ano atípico, pois nos últimos oito anos é a primeira vez que a demanda se mostra maior do que a produção de café.

Ele, que participará do encontro na próxima semana em Londres, Inglaterra, em nome da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), será o único representante dos brasileiros no evento.

As apostas de Lima Verde para o ponto alto das discussões são para a organização não-governamental (ONG) formada por vários países produtores e consumidores de café. Entre eles estão os Estados Unidos, maior consumidor mundial do produto e que não integra mais a OIC (formada por 115 países).

“Para resolver o problema (da demanda maior que a oferta), será preciso ‘morder’ 7 milhões de sacas de um estoque mundial de aproximadamente 40 milhões, sendo que 20 milhões delas estão nas mãos dos consumidores e 16 milhões dos produtores - incluindo o Brasil, que tem 8 milhões de sacas de estoque. Isso tudo levou a uma eleavação dos preços. Hoje, a saca do café está em US$ 120, sendo que nos últimos três anos chegou a custar entre US$ 40 e US$ 70", destaca.

Segundo Lima Verde, a alta dos preços resultou no esvaziamento da produtividade do setor. Os produtores não teriam tirado proveito da situação pelo fato de ter um baixo volume do produto para colocar no mercado.

“Todo produto deles ficou comprometido com empréstimos ou outras operações. Ou seja, não adianta nada o preço subir se o produtor não tem o produto para vender ou se o que tem está comprometido para pagar dívidas. Então, 80% das cerca de 8 milhões de sacas que o País tem em estoque não podem ser comercializadas (o que agrava o problema da demanda maior que a oferta)”, aponta Lima Verde.

De acordo com ele, está prevista para a atual safra brasileira uma colheita em torno de 33 milhões de sacas de café. Há um consenso entre os produtores que seria necessária uma produção média de 50 milhões de sacas nos próximos dez anos para que o setor começasse a trabalhar com folga e tivesse maior força política. O Brasil é o maior produtor mundial de café.

“É uma incoerência: você precisa aumentar a produção, mas não tem capital e nem financiamento para investir. Então, a idéia é aumentar a produtividade, ou seja, ter a mesma quantidade de pés de café produzindo cerca de 25% a 30% a mais. Isso também será discutido na reunião da OIC”, revela o vice-presidente da Faesp.

Cerca de 12 milhões de brasileiros e várias cidades dependem diretamente da cultura de café. Isso ocorre também com vários países da África, Ásia e na Colômbia. Segundo dados do Sindicato dos Produtores Rurais de Campo Belo (MG), atualmente existem no Brasil mais de 300 mil cafeicultores e quase 2 mil municípios que dependem do café.

“Portanto, (no encontro) vamos procurar desenvolver a consciência social e atrelar isso ao viés econômico para tentar encontrar uma solução para o atual dilema mundial. Se não houver a consciência social, também não haverá consciência econômica”, diz o representante da CNA.