Conhecido nacional e internacionalmente como um ícone da aviação no Brasil, o ex-ministro Ozires Silva está hoje em Bauru para dividir o mérito de sua conquista pela produção de aeronaves no Brasil com um colega de infância: o tenente Benedicto César, o Zico, morto há 50 anos, em um acidente aéreo, no Rio de Janeiro. Em uma cerimônia na Câmara Municipal de Bauru, ele vai prestar uma homenagem ao colega que dividiu com ele o sonho de tornar o Brasil um grande construtor de aviões.
Silva diz que não sabe se terá condições de fazer discurso. “Eles querem que eu fale durante a cerimônia, mas não sei se vou conseguir”, diz, com a voz embargada.
O tenente Benedicto César foi colega de escola de Ozires Silva em Bauru, juntamente com o hoje advogado Edísio Gomes de Matos. Os três, no auge da juventude, deixaram a cidade para ingressar na Força Aérea Brasileira, na década de 40, movidos pela paixão pelo ar. “O mais vidrado em tudo isso era o Zico”, conta o ex-ministro.
Ele ressalta que o sonho deles era ver o Brasil produzindo aeronaves. “Quando tínhamos 15, 16 anos, pensávamos: o Brasil tem a mesma idade dos Estados Unidos. Por que eles conseguem fabricar e o nosso País não?”.
Incomodados com esse pensamento, os colegas, ainda adolescentes, passaram a desenvolver uma série de idéias sobre a construção de aeronaves.
Matos lembra que foi ele quem incentivou os dois amigos a ingressar na carreira. “Meu tio era do Exército e eu já tinha alguma noção da carreira militar. Então, incentivei os dois a ingressar na Aeronáutica”, destaca.
Os sonhos migraram com eles para a Academia da Força Aérea, onde estudaram juntos e se formaram. Silva foi para Belém trabalhar com transporte aéreo, enquanto Zico ficou no Rio na aviação de caça.
Em março de 1955, os amigos se reencontraram no apartamento do tenente Benedicto César, na capital fluminense. No meio do bate-papo, relembraram fatos da infância e trocaram observações sobre a carreira militar.
Um fato interessante chamou a atenção de Silva. “Ele (Zico) disse que havia sonhado que um de nós estava levando o outro morto para Bauru”, conta o ex-ministro.
Uma semana depois do reencontro, Benedicto César sofreu um acidente a bordo do caça Gloster Meteor (jato de combate), quando fazia um vôo de treinamento, acompanhado do capitão José Maria Marques Galvão, sobre a baía de Sepetiba, no Rio de Janeiro.
Ozires Silva foi avisado do falecimento e veio para Bauru acompanhando o corpo do amigo. Zico foi enterrado no Cemitério da Saudade.
Embraer
O desejo dos amigos de ver o Brasil se tornar construtor de aeronaves começou a tomar forma três anos depois do acidente.
Participando de um vôo de treinamento com um colega que estudava engenharia no Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), Ozires Silva viu renascer o sonho de infância. “Entrei naquele vôo como aviador e desci como engenheiro”, diz, referindo-se à decisão que tomou ainda a bordo do avião.
Ele conta que não imaginava que a vontade de ver uma aeronave ser fabricada no Brasil pudesse se transformar na megaestrutura que hoje se chama Embraer, considerada a quarta maior fabricante de aeronaves do mundo. “Sinceramente, eu não imaginei que o estrago seria tão grande”, brinca, referindo-se ao grande destaque da empresa brasileira.
Depois de formado no ITA, Silva passou a investir para valer no seu sonho e voltou o seu potencial para dotar o Brasil de uma indústria aeronáutica.
A Embraer nasceu em 1969. Silva presidiu-a de 1970 a 1986, mas nunca esqueceu o incentivo e a vontade do amigo de infância, Zico, que hoje recebe uma homenagem pelos 50 anos de sua morte. “Eu achei que era hora de sacudir Bauru, aproveitando as cinco décadas da morte de Zico”, frisa o ex-ministro.
O presidente da Câmara, Antonio Carlos Garms (PSDB), vai ler Moção de Aplauso em memória do aviador. “Essa homenagem é uma espécie de resgate, de prestação de contas. Quero dizer a ele: ‘Zico, conseguimos’”, destaca.