Até fevereiro deste ano era possível acreditar que a indústria iria manter um ritmo de produção suficiente para sustentar um crescimento de 4,5% ou 5% do PIB em 2005. Havia alguns sinais meio dúbios de redução da velocidade, mas ainda se notava entusiasmo na maioria dos setores. Mantinha-se a esperança que a inteligência do governo não permitiria sacrificar o crescimento econômico na vã tentativa de reduzir arbitrariamente a inflação de 7,6% para 5,1%.
Infelizmente, aqueles sinais perturbadores se transformaram numa realidade muito desagradável, porque o governo insistiu em perseguir a meta irracional, na crença de que o choque dos juros produziria o efeito desejado sem comprometer o crescimento do PIB. Não foi preciso esperar muito para ver a confirmação: no primeiro trimestre do ano, conforme os dados divulgados pelo IBGE no início de abril, a expansão da produção industrial brasileira foi de apenas 3,9%, o que não é ainda uma tragédia, mas é quase um terço do que se verificou no ano passado. Em São Paulo, a indústria cresceu 5,2%, no trimestre, quando crescia a 8,4% no mesmo período do ano anterior. Não se tem o levantamento completo em nível nacional para o mês de abril, mas a queda no ritmo da produção da indústria paulista se acentuou, aproximando-se da estagnação.
Esses resultados sugerem que não vai se reproduzir este ano um crescimento robusto do PIB como o de 2004. Se no início deste ano era possível projetar uma expansão entre 4,5% e 5%, próximo dos 5,2% do ano passado, a confirmação da perda de dinamismo da produção industrial nos obriga a reconhecer que estamos mais perto de um crescimento de 3,5% a 4%. Quando terminarmos a avaliação das perdas na produção agrícola que somente no Rio Grande do Sul e Paraná já representam algo como 10 milhões de toneladas de grãos, é provável que o crescimento da economia este ano seja ainda mais decepcionante.
O que causa espanto é a reação meio morna das pessoas que têm a responsabilidade de governo, diante desse fato gravíssimo que é a perda de Produto (e de emprego, de renda, da oportunidade de reduzir um pouco a pobreza) em troca de um ganho absolutamente insignificante na inflação. Aceita-se a perda (irrecuperável) de 1,7% de Produto em troca da tentativa de fazer a inflação cair dos atuais 7.6% para 5,1%, com a enorme probabilidade de não ser atingida a meta.
Para salgar ainda mais a conta, a sociedade é informada que precisa ser duramente castigada porque o Banco Central do Brasil concluiu que somos demasiadamente tolerantes com a doença inflacionária. Na realidade, a sociedade é que tem sido demasiadamente tolerante com uma política monetária que desequilibra o câmbio, desestimula as exportações brasileiras, penaliza a indústria e a agricultura e só faz a alegria dos setores financeiros, porque permite toda a sorte de manipulações, toda a sorte de arbitragens com as taxas de juros, obtendo lucros fantásticos, sem nada a acrescentar ao desenvolvimento brasileiro.
O autor, Antonio Delfim Netto, é deputado federal pelo PP-SP, professor emérito da USP