08 de julho de 2026
Geral

Incra obtém Horto e assentará sem-terra

Ieda Rodrigues
| Tempo de leitura: 3 min

Mesmo com a terra seca castigada pela típica estiagem de inverno, sem dinheiro para aplicar na agricultura e morando em barracos, os sem-terra acampados no Horto Florestal Aymorés desde janeiro de 2003 comemoraram ontem o início da regularização da posse do terreno que estão ocupando. O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) obteve da União a área do horto, de 5.262,12 hectares, e anunciou que vai começar o processo de assentamento das famílias.

Soltando rojões, ontem à tarde a direção do Movimento Terra Nossa, grupo ligado à Central Única dos Trabalhadores (CUT), deu a notícia às 108 famílias que estão na área. “Passamos muita fome e frio, mudamos nove vezes desde que chegamos aqui, mas agora estamos vendo nosso sonho ser realizado”, disse Celso Costa, um dos coordenadores do grupo.

A área do horto foi repassada ao Incra, segundo a assessoria de imprensa do órgão, por meio de um processo de transferência administrativa (deslocamento entre órgãos da União). O horto, com terras nos municípios de Bauru e Pederneiras, era propriedade da extinta Rede Ferroviária Federal (RFFSA) e posteriormente foi incorporado ao Serviço de Patrimônio da União.

Com a posse da área, agora o Incra dará início ao Projeto de Desenvolvimento de Assentamento, que avaliará o manuseio do solo e a viabilidade econômica. O próximo passo será enviar uma equipe para identificar a área e garantir a propriedade ao Incra. “O horto estava sofrendo ameaças de grilagem e a intervenção significa um ato de proteção da área pública, destinando-a à reforma agrária”, informa a assessoria de imprensa do órgão.

Costa lembra que para receber o título de posse da terra as 108 famílias que ocupam o horto ainda terão um longo caminho pela frente. Provisoriamente, o órgão destinou dois alqueires para cada família, mas todas elas terão que apresentar documentos e passar na seleção que será feita pelo Incra. “A nossa expectativa é que cada família fique com cerca de cinco alqueires”, diz. Além da área já ocupada pelos sem-terra e de outra que está improdutiva, inda há terras do horto que estão arrendadas.

Morando em barracos erguidos com madeira e lona, sem água encanada nem energia elétrica, os sem-terra começam a colher mandioca, feijão, abóbora, melancia e hortaliças para consumo próprio e pequeno comércio. “A saída que a gente achou para conseguir um dinheiro é fazer polvilho e farinha de mandioca para vender”, conta Pedro Silva Bispo, um dos integrantes do grupo.

Sua mulher, Zilma Pereira Santana Bispo, reclama da falta de água em casa. “É muito difícil. Pegamos água em um córrego a uns 300 metros. Tem que fazer três, quatro, cinco viagens por dia. Mas esperamos que melhore”, comenta. Como a maioria do grupo, a família veio da região de Campinas para Bauru atrás de terra para reforma agrária. “Eu sou pedreiro, mas estava desempregado e então vim para cá com mulher, dois filhos e um neto”, completa Bispo.

De acordo com a coordenação do Movimento Terra Nossa, todas as crianças do grupo estão freqüentando a escola. “Temos 108 crianças que estão estudando no Núcleo Bauru 1. Nosso plano é fazer uma biblioteca aqui. Já temos cerca de 5 mil livros guardados para isso”, comenta Costa.

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CPT e Unesp ajudam

Os sem-terra já contam com o apoio da Comissão Pastotal da Terra (CPT), órgão ligado à Igreja Católica, que ajuda as famílias a vender seus produtos agrícolas na cidade. “Como não temos verba, nós oferecemos apoio e fazemos a apresentação dos assentados nas comunidades. Assim, facilita a venda do que estão produzindo”, explica Maria Aparecida Luz, coordenadora da CPT na microrregião de Bauru.

Mas agora, os sem-terra também terão a ajuda da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, que vai desenvolver um estudo na área de saúde.

“Vamos fazer um diagnóstico para tentar identificar a fonte de doenças parasitárias intestinais, que são um problema crônico no Brasil e maior ainda em locais de condições sanitárias precárias, como aqui”, relata Teresa Cristina de Oliveira, professora da Unesp.